A esquerda e o segundo turno das eleições no Brasil

Por Atilio A. Boron
Tradução de Renato Kilpp e Gabriel Eduardo Vitullo
Obedecendo a uma ordem direta de Adolf Hitler, em 18 de Agosto de 1944, Ernst Thälmann morria fuzilado pelas SS no campo de concentração de Buchenwald. Seu corpo foi imediatamente cremado, para que não sobrasse qualquer vestígio de sua passagem por este mundo. Thälmann havia chegado a este tétrico lugar depois de passar onze anos de sua vida na prisão de Bautzen, para onde fora enviado quando a Gestapo o deteve – assim como a milhares de seus camaradas – pouco depois da ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Nesta prisão foi submetido a um regime de confinamento solitário, cumprindo a pena que lhe foi imposta pelo imperdoável delito de ter sido o fundador e o dirigente máximo do Partido Comunista Alemão. Thälmann era também um dos líderes da Terceira Internacional, que em seu VIº congresso – realizado em Moscou em 1928 – havia aprovado uma linha política ultra-esquerdista, de “classe contra classe”.

Esta orientação política se traduzia na absoluta proibição de estabelecer acordos com os partidos socialdemocratas ou reformistas, caracterizados como “socialfascistas” e considerados como sendo a ala esquerda da burguesia. Nem sequer o mortal perigo que representava o irresistível avanço do nazismo na Alemanha e a estabilização do regime fascista na Itália conseguiram mudar esta diretriz. León Trotsky se opôs a ela e a condenou imediatamente. Antonio Gramsci, na prisão, confessava a um prisioneiro socialista, Sandro Pertini, que este lema que debilitava a resistência ao fascismo “era uma estupidez”. Tanto o revolucionário russo quanto o fundador do PCI eram conscientes de que o sectarismo dessa tática expressava um temerário desprezo pelas urgências da conjuntura e que sua aplicação terminaria por abrir as portas aos horrores do nazismo, comprometendo por muito tempo as perspectivas da revolução socialista na Europa.

A Terceira Internacional abandonou essa postura em seu VIIº e último Congresso, em 1935, para adotar as teses das frentes populares ou frentes únicas antifascistas. Mas já era tarde demais. O suposto subjacente da tese do “socialfascismo” era que todos os partidos, à exceção dos comunistas, constituíam uma massa reacionária e que não havia distinções significativas entre elas.

Chama a atenção o profundo desconhecimento que esta doutrina evidenciava em relação ao que Marx e Engels haviam escrito no Manifesto Comunista. Em seu capítulo II dizem, por exemplo, que “os comunistas não formam um partido à parte, oposto a outros partidos operários… Os comunistas só se distinguem dos demais partidos proletários quando, por um lado, nas diferentes lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem valer os interesses comuns a todo o proletariado, independentemente da nacionalidade; e, por outro lado, quando, nas diferentes fases do desenvolvimento pelas quais passam as lutas entre o proletariado e a burguesia, representam sempre os interesses do movimento em seu conjunto”.

Lenin, por sua vez, durante o curso da Revolução Russa, reiteradamente ressaltou a necessidade de que todos os bolcheviques elaborassem uma política de alianças com outras forças políticas, que, preservando a autonomia e a identidade política dos comunistas, pudesse, em certas circunstâncias, levar à prática ações e iniciativas concretas que fizessem avançar o processo revolucionário.

Havia, tanto nos fundadores do materialismo histórico como no líder russo, uma clara ideia de que poderia haver partidos operários, ou representantes de outras classes ou grupos sociais (a pequena burguesia é o exemplo mais corrente) com os quais se poderia forjar alianças transitórias e pontuais e que nada poderia ser mais prejudicial para os interesses dos trabalhadores que subestimar essa possibilidade e, desse modo, abrir as portas à vitória das expressões mais recalcitrantes e violentas da burguesia. Voltaremos a este tema mais adiante.
Os parágrafos anteriores vem à mente porque nos últimos dias muitos companheiros e amigos do Brasil me fizeram chegar mensagens onde anunciavam suas intenções de abster-se no segundo turno de 26 de outubro, ou de votar em branco ou nulo, com o argumento de que tanto Aécio quanto Dilma eram o mesmo, e que para a causa popular seria a mesma coisa a vitória de um ou de outro.

O povo brasileiro, diziam estas mensagens, sofrerá os rigores de um governo que, em qualquer caso, estará a serviço do grande capital e contra os interesses populares. O motivo destas linhas é demonstrar o grave erro em que incorreria se assim fosse. Da mesma forma que a desastrosa política do “socialfascimo”, que pavimentou o caminho de Hitler ao poder, a tese de que Aécio e Dilma “são o mesmo” vai provocar, caso triunfe o primeiro, terríveis consequências para as classes populares do Brasil e de toda a América Latina, para além da obviedade de que Aécio não é Hitler e de que o PSDB não é o Partido Nacional Socialista Alemão.
A análise marxista ensina que, em primeiro lugar, resolver os desafios da conjuntura exige, como tantas vezes dissera Lenin, uma “análise concreta da situação concreta” e não somente uma manipulação abstrata de categorias teóricas. Dizer que Aécio e Dilma são políticos burgueses é uma caracterização tão grosseira como dizer que o capitalismo brasileiro é o mesmo que existe na Finlândia ou na Noruega – os dois países mais igualitários do planeta e com maiores índices de desenvolvimento humano, segundo diversos informes produzidos pelas Nações Unidas – para, a partir daí, extrair um lúcido “guia para a ação” que oriente a política das forças populares.

Nenhuma análise séria do capitalismo, ao menos da perspectiva marxista, pode limitar seu exame ao plano das determinações essenciais que o caracterizam como um modo de produção específico. Muito menos quando se trata de analisar uma conjuntura política. Cometer esse erro é cair no que Gramsci criticou como um exemplo do “doutrinarismo pedante” do infantilismo esquerdista que proliferou na Europa nos anos 20 e 30 do século passado.

Por esta mesma razão dizer que Hitler e León Blum eram dois políticos burgueses não permitiu avançar um milímetro sequer na compreensão da dinâmica política da crise geral do capitalismo na Europa, por não falar da capacidade para enfrentar eficazmente a ameaça fascista.

Em um caso tratava-se de um déspota sanguinário, fervoroso anticomunista, que submeteria seu país e toda a Europa a um banho de sangue; no outro caso, tratava-se de um primeiro ministro socialista da França, líder da Frente Popular, que acolhia os alemães e os italianos que fugiam do fascismo e que se opôs, sem sucesso para a desgraça da humanidade, aos planos de Hitler. Era evidente que ambos não eram o mesmo, apesar de sua condição de políticos burgueses. Mas o sectarismo ultra-esquerdista passou por cima destas supostas ninharias e, com sua miopia política, facilitou a consolidação dos regimes fascistas na Europa.
Em segundo lugar, qualquer um minimamente informado sabe muito bem que, por suas convicções ideológicas, por sua inserção em um partido como o PSDB e por sua trajetória política, Aécio Neves representa a versão dura do neoliberalismo: império irrestrito dos mercados, desmantelamento do “nefasto intervencionismo estatal”, redução dos investimentos sociais, “permissividade” ambiental e apelo à força repressiva do estado para manter a ordem e conter aos revoltados.

Foi por isso que nada menos que o Clube Militar – um antro de golpistas reacionários, nostálgicos da brutal ditadura de 1964 – decidiu brindar-lhe com seu apoio, dado que, segundo seus integrantes, o ex-governador de Minas Gerais possui “as credenciais necessárias para interromper o projeto de poder do PT, que marcha para à sovietização do país”.

Fora o desvario que manifestam os proponentes deste disparate, seria um gesto de imprudência que a esquerda não perceba o crescente processo de fascistização de amplos setores das camadas médias e o clima macartista que satura diversos ambientes sociais e que, em consequência, subestimasse a transcendência do que significa o explícito apoio a Aécio de parte dos militares golpistas, o setor mais reacionário (e muito poderoso) da sociedade brasileira.

Que depois da vergonhosa capitulação de Marina, Aécio tenha prometido assumir como própria a “agenda social e ecológica” dela é apenas uma manobra propagandística que somente espíritos incuravelmente ingênuos podem levar a sério.
Em terceiro lugar, a indiferença de um setor da esquerda brasileira diante do resultado do segundo turno reedita o otimismo suicida com que Thälmann enfrentou, da prisão, a estabilização do regime nazista: “depois de Hitler” – dizia a seus companheiros de infortúnio, tratando de consolá-los – “viremos nós”. Equivocou-se tragicamente. Alguém pode pensar que depois de Aécio florescerá a revolução no Brasil? O mais certo é que se inicie um ciclo de longa duração onde as alternativas à esquerda, inclusive de um processo “light” como o do PT, desapareçam do horizonte histórico brasileiro por longos anos, como ocorreu depois do golpe de 1964.

É ilusório pensar que, sob Aécio, as classes e camadas populares irão dispor de condições mínimas para reorganizar-se depois do fracasso experimentado pelas políticas suicidas do PT; também é ilusório imaginar que novos movimentos sociais poderão surgir e atuar com um certo grau de liberdade numa esfera pública, cada vez mais controlada e limitada pelos aparelhos repressivos do estado; ou ainda supor que novas forças partidárias poderão irromper para disputar, a partir das ruas ou das urnas, a supremacia da direita.
Em quarto lugar, é óbvio que a opção com que irá se deparar o povo brasileiro no próximo 26 de outubro não passa por reação ou revolução. Passa pela restauração conservadora que representa Aécio Neves ou pela continuidade de um neodesenvolvimentismo atravessado por profundas contradições mas levado ao Planalto por aquele que, na época, foi o mais importante partido de massas da esquerda na América Latina.

Em que pese a sua lastimável capitulação perante as classes dominantes do Brasil, sua incapacidade para compreender a gravidade da ameaça imperialista que paira sobre o seu país – o país mais cercado por bases militares norte-americanas de toda a América Latina! – e o abandono de seu programa original, o PT conserva ainda a fidelidade de um segmento majoritário dos condenados da terra no Brasil e um certo compromisso, poucas vezes cumprido mas mesmo assim presente, com as aspirações emancipatórias das classes populares que em 1980 o fizeram nascer. Por isso, e diante da desaceleração da reforma agraria no Brasil, Dilma pelo menos tem que sair e explicar ao MST as razões do seu comportamento e prometer a adoção de algumas medidas para modificar essa situação. Já Aécio não tem nada a ver com o MST nem com os camponeses brasileiros, e frente aos seus reclamos responderá com a polícia militarizada.
Em quinto e último lugar, é bom ressaltar que o anterior não implica qualquer exaltação do PT, que na sua triste involução passou de uma organização moderadamente progressista a ser um típico “partido da ordem” e que sequer lhe serve adequadamente o adjetivo reformista. Também não se desprende da nossa argumentação a necessidade ou a conveniência de que as forças de esquerda estabeleçam uma aliança com o PT ou selem acordos programáticos com ele de olho para o futuro.

Mas na atual conjuntura, definida pelo fato institucional das eleições presidenciais e não pela iminência de uma insurreição popular revolucionária, o voto em Dilma é o único instrumento disponível no Brasil para evitar um mal maior, muito maior. Os companheiros que advogam pela neutralidade ou pela indiferença deveriam, para serem honestos, assinalar qual é a outra força política que poderia impedir a vitória do Aécio, e qual é a estratégia política para tal fim, seja eleitoral (que não existe) ou extra- institucional ou ainda insurrecional, algo que ninguém consegue enxergar no horizonte.

Portanto não há outra arma para impedir a vitória de Aécio e a esquerda não pode se refugiar numa pretensa neutralidade. E caso se consiga derrotar a reação conservadora liderada pelo PSDB (como muitos na América Latina e no Caribe esperamos ferventemente) caberá aproveitar os quatro anos que vem pela frente para reorganizar o campo popular desorganizado, desmoralizado e desmobilizado pelas políticas do PT. E submeter o segundo governo de Dilma a uma crítica implacável, empurrando-a, a partir “de baixo”, dos movimentos sociais e das novas formas partidárias, a adotar as políticas necessárias para um ataque a fundo contra a pobreza e a desigualdade, contra a prepotência dos oligopólios e contra as chantagens das classes dominantes aliadas ao imperialismo.

No plano internacional o trunfo dos tucanos teria gravíssimas consequências porque colocaria no Planalto a uma força política submetida por completo aos ditames da Casa Branca; sabotaria os processos de integração supranacional em andamento como o Mercosul, a UNASUL e a CELAC; serviria como ponta de lança para atacar a Revolução Bolivariana e os governos de esquerda e progressistas da região; para isolar a Revolução Cubana e para oferecer apoio material e humano do Brasil para as infinitas guerras do império. Este não se engana, e não por nada tem lançado, junto aos seus aliados locais, uma fortíssima campanha para que seu candidato, Aécio, triunfe no próximo domingo.

Ninguém na esquerda pode ignorar que, se tal coisa chegasse a acontecer, uma longa noite cairia sobre a América Latina e o Caribe, abrindo um funesto parêntese que sabe lá quanto tempo demoraríamos em fechar. Sem exagerar nas analogias históricas, conviria meditar sobre a sorte corrida por Thälmann e seus camaradas comunistas graças à adoção de uma tese que sustentava a igualdade essencial de todos os políticos burgueses.

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Qual é o problema dos comentadores?

Se tem uma coisa que aprendemos ao moderar comentários num site com um número razoável de visitas e assuntos polêmicos, é que uma boa parcela dos usuários não tem boa capacidade de leitura ou de raciocínio.

Não é difícil que os comentários virem enfadonhas repetições de lugares-comuns, frases de efeito bonachonas, nervosas e vazias. É frequente que os comentários recheados de xingamentos e acusações falem de coisas que não estão escritas no texto.

Mais comum ainda é que os comentários questionem coisas que já estão respondidas no próprio texto. A pessoa apenas leu o título, fez uma leitura superficial, está de má-fé (trollando), ou realmente é incapaz de compreender o que está escrito?

Tudo parece uma enorme mistura de ignorância com ressentimento. Muitos comentários são apenas “desabafos” sem sentido, expressando sintomas histéricos ou psicóticos.

É por isso me reservo ao direito de não aceitar comentários agressivos, caluniosos, ofensivos ou com links para sites de extrema-direita. Ser conivente com demonstrações de estupidez e analfabetismo funcional só vai estimular ambas as coisas.

Aconselho a uma parte dos comentadores nervosinhos e semiletrados que busquem lidar melhor com os seus próprios sentimentos, ao invés de buscar bodes expiatórios, e aprendam a ler, escrever e raciocinar melhor. Aproveitem para sair um pouco da bolha, para se ter uma ideia melhor do mundo real mais amplo que a circulação entre condomínio-escola particular-shopping center em bairros de classe média.

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Desculpas esfarrapadas

As desculpas usadas para tentar justificar o golpe de Estado de 1º de abril de 1964 são as mais esfarrapadas que se pode esperar. Existem, porém, duas versões, uma para lunáticos sem muita capacidade de raciocínio, outra um pouco mais sofisticada.

A primeira desculpa alega que o golpe foi na verdade um contra-golpe (que eles chamam de “revolução”), com o objetivo de impedir a tomada de poder por uma supostamente gigantesca, invisível, poderosa e improvável (nos dois sentidos da palavra) conspiração comunista mundial supostamente infiltrada no Brasil. Assim que tomassem o poder, esses conspiradores implantariam a “subversão dos valores cristãos ocidentais” e a “república sindicalista”, entre outras bobagens que os teóricos da conspiração inventavam. Após o golpe consumado, essa conspiração, sem conseguir tomar o poder, seria causa universal das greves, protestos, drogas ilícitas, banditismo, promiscuidade, ateísmo, arte erótica, homossexualidade, etc.

A segunda desculpa é um pouco mais sofisticada, mas não se enganem: é uma justificativa velada, e muito esfarrapada. Alega que João Goulart foi culpado do golpe de Estado, não por ser comunista, mas por ser supostamente populista, indeciso, fraco, incompetente e cercado de corruptos e “radicais”. Teria deixado a instabilidade tomar conta do país, ao prometer reformas de base e não reprimir o sindicalismo independente, Ligas Camponesas e nacionalistas de esquerda dentro das corporações militares. Resumindo: “teve o que mereceu”.

As desculpas esfarrapadas para o golpe de Estado se prolongam em desculpas esfarrapadas para o Terrorismo de Estado: na versão troglodita, o golpe preveniu a vitória da conspiração comunista, que continuou lutando contra o regime ditatorial instalado; na versão sofisticada, a ação de opositores radicais levou ao uso de medidas terroristas para vencer a luta armada.

A versão troglodita é fácil de responder, apesar de os seus proponentes nunca ouvirem os argumentos contrários às suas opiniões: nunca, em toda a história, um governo democrático foi deposto por uma rebelião comunista. Ao contrário, todos os governos depostos por movimentos liderados ou com participação de comunistas eram extremamente despóticos: governos coloniais, monarquias absolutas, ditaduras fascistas ou militares. E todos os governos democráticos depostos no século XX o foram por golpistas anticomunistas, que juravam estar defendendo a democracia ao suprimi-la.

A versão sofisticada não resiste a melhor exame: João Goulart ocupou a Presidência da República num momento de extrema delicadeza, sofreu uma intensa campanha de desestabilização patrocinada pelo governo dos Estados Unidos e grande parte do empresariado (incluindo a imprensa comercial), com participação de políticos de oposição, oficiais militares, clero católico e pequena-burguesia das grandes cidades. As quarteladas e insubordinações militares, a agressiva propaganda golpista, a associação criminosa entre empresários, militares, políticos e agentes estadunidenses, tudo isso já vinha anteriormente. Uma vez deposto o Presidente legítimo, substituído por uma Junta Militar Ditatorial chefiada por um General-Presidente, foi desencadeada uma onda de perseguições políticas por vários meios (cassação, demissão, exílio, prisão, tortura, assassinato, desaparecimento forçado), foi preciso ainda 4 anos e um estado de sítio total (AI-5) para que algumas centenas de ativistas optassem pela luta armada, combatida pelo governo com os mesmos métodos utilizados contra a militância não armada e minorias étnicas: sequestro, tortura, execução sumária, desaparecimento forçado, tribunais militares, censura prévia à mídia. Nem mesmo uma guerra civil de verdade justificaria o uso destes instrumentos criminosos, pois a guerra é regulada pela Convenção de Genebra.

Então quando forem agradecer aos militares fascistas (qualifico como fascistas, e não militares em geral, pois sei que mais de 7.500 militares sofreram exoneração, cassação, prisão, processos injustos e tribunais de exceção, tortura, assassinato e exílio por se oporem ao golpe), não se esqueçam de que, além da hiper-inflação, aumento da desigualdade e pobreza, arrocho salarial, endividamento externo, militarização da segurança pública, sucateamento da educação e saúde básicas, aumento da favelização, extermínio de povos indígenas, filhotes da ditadura na política e no empresariado, estes militares fascistas e seus aliados civis nos deixaram um amontoado de mentiras e desculpas esfarrapadas para os seus crimes contra a humanidade.

E como crimes contra a humanidade (imperdoáveis e imprescritíveis), só nos resta a investigação dos fatos e punição dos responsáveis. Doa a quem doer.

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Os novos esquerdistas

A Tese de que as posições ideológicas entre direita e esquerda podem ser resumidas apenas a questão do tamanho do estado já se tornou um Dogma entre os novos direitistas. Caso em um futuro próximo um governo ultradireitista estabeleça como norma esse critério para decidir que governos são de esquerda ou de Direita nos livros de historia é melhor nos adiantamos e avaliar direitistas históricos sobre essa nova maneira de classificar as ideologias e seus defensores.

Vamos começar com um texto de Adam Young um libertário que como 95% dos novos direitistas acredita que toda forma de assistencialismo estatal é um tipo de socialismo só que ele ao contrario de muitos é honesto e aplica o seu critério de Direita X Esquerda para todos os tipos de políticos e não só para os que lhe interessam.

Churchill também foi um famoso opositor do comunismo e do bolchevismo, em particular.

Uma das razões por que Churchill admirava o fascismo italiano é que ele acreditava que Mussolini tinha encontrado uma fórmula que neutralizaria o apelo do comunismo, ou seja, super-nacionalismo com um apelo social assistencialista.(…) Churchill foi tão longe a ponto de dizer que o fascismo “provou o antídoto necessário para o veneno comunista”.

No linguajar dos novos direitistas Churchill queria barrar o socialismo na Europa usando… socialismo. Um direitista autentico não deveria defender com unhas defende o livre mercado?

Afinal o livre mercado é a melhor forma de combater o comunismo pois gera progresso social ao menos na teoria do neoliberalismo. Para um ídolo da direita Churchill tinha pouca fé no estado mínimo.

Para os que acreditam que foi algo temporária é bom lembrar que Churchill defendeu um estado ativo tanto em sua juventude quanto depois da segunda guerra onde já tinha se tornado um dos mais carismáticos dos primeiros-ministros da Inglaterra:

Churchill foi convertido para o modelo de seguro social de Bismarck depois de uma visita à Alemanha. Como ele disse a seus eleitores: “Meu coração se encheu de admiração do gênio paciente que tinha adicionado estes baluartes sociais para as muitas glórias da raça alemã”.

Em seguida eu disse que queria “empurrar uma grande fatia do Bismarckianismo por toda a parte inferior do nosso sistema industrial”. Em 1908, Churchill anunciou em um discurso em Dundee: “Eu estou do lado daqueles que pensam que um maior sentimento coletivo deve ser introduzido no Estado e os municípios gostariam de ver o Estado a realizar novas funções.”

Churchill chegou a dizer: “Eu vou mais longe, eu gostaria de ver o Estado embarcar em várias experiências novas e aventureiras.”

“Churchill descreveu seus parceiros no governo de unidade nacional, o Partido Trabalhista, como totalitários, quando foi o próprio Churchill que havia aceitado o infame Relatório Beveridge que lançou as bases para o gerenciamento de estado do bem-estar do pós-guerra e (mal) keynesiana da economia.”

Mas não somente grandes personalidades da direita tem seus “momentos esquerdistas” Partidos políticos podem seguir uma determinada ideologia e muda-la completamente em algumas décadas. O partido republicano e o democrata dos EUA são os melhores exemplos disso.

Como todos sabem antes da guerra de secessão os EUA estavam divididos entre o sul escravocrata e o norte livre, mas a escravidão não era o único ponto de divergência entre o sul e o norte. Cada região tinha um projeto politico diferente para o pais:

O real motivo pelo qual a guerra foi travada foi a discordância entre os projetos políticos dos estados do norte e do sul americanos. O sul, agroexportador, pretendia o estabelecimento de uma nação pró-livre comércio, com baixas tarifas alfandegárias, ao passo que o norte, mais voltado para uma incipiente produção industrial, queria proteger seus mercados internos. Uma vez que a União comanda a política externa do país, ambos os lados pelejavam no Congresso propugnando seus interesses.

Agora vamos da uma olhada no mapa eleitoral de 1860:

mapa eleitoral eua 1860

Como podem ver Lincoln foi eleito pelo norte que apoiava o protecionismo enquanto o sul que defendia o livre mercado votou nos democratas. O debate entre republicanos e democratas sobre o tamanho do estado e sua atuação na economia continuou mesmo depois da guerra.

“As indústrias de vestuário, processamento de comida e ferrovias desenvolveram-se para atender às demandas da guerra e o Partido Republicano começou a identificar-se cada vez mais com os grandes empresários e industriais do Norte e Meio-Oeste e a ser identificado pela população como tendo sido capaz de promover o desenvolvimento econômico mesmo em meio a uma sangrenta guerra. Por outro lado, passou a ser acusado pelos adversários democratas de ser o partido do “governo grande” e dos altos impostos.”

Longe de se envergonharem de tal politica os presidentes republicanos faziam questão de defende-la em seus discursos. O caso mais conhecido é do presidente William McKinley vejam um trecho de um dos discursos que fariam ele ser vaiado em qualquer encontro dos republicanos atuais:

“[Eles dizem] se vocês não tivessem uma tarifa protecionista as coisas seriam um pouco mais baratas. Bem, se uma coisa é barata ou cara depende do que nós podemos adquirir por nosso trabalho diário. O livre comércio barateia o produto porque desvaloriza o produtor.protecionismo barateia o produto porque valoriza o produtor. Sob o livre comérciocomerciante é o senhor e o produtor o escravo. O protecionismo é, porém, a lei da natureza,lei da autopreservação, do autodesenvolvimento, de assegurar o mais alto e melhor destinoraça humana. “[Diz-se] que o protecionismo é imoral… Por que, se o protecionismo constróieleva 63.000.000 [a população dos Estados Unidos, na época] de pessoas, e a influência destas 63.000.000 de pessoas elevam o resto do mundo? Nós não podemos dar um passo na estrada do progresso sem beneficiar o gênero humano em toda a parte. Bem, eles dizem, ‘compre onde você pode comprar mais barato’…. Tudo bem, isto aplica-se ao trabalho como a qualquer outra coisa. Permitam-me dar a vocês uma máxima que é mil vezes melhor que essa, e é a máxima do protecionismo: ‘Compre onde você pode pagar mais facilmente.’ E este lugar da terraonde o trabalho ganha as suas mais elevadas remunerações.”

A frase acima pode surpreender quem não conheça a historia dos dois partidos mas para quem já leu algo sobre o assunto sabe que o partido republicano no inicio defendiaprincípios da escola americana de economia que apoiava tarifas alfandegarias e subsídiosempresas se opondo a corrente econômica dominante da época que era o liberalismo econômico.

A escola Americana de economia foi uma precursora do keynesianismo e de correntes econômicas que são chamadas de nacional-desenvolvimentismo ou simplesmente desenvolvimentismo. Tanto governos de esquerda quanto de direita se utilizaram de politicas desenvolvimentistas mas pelos critérios dos novos direitistas qualquer um que tenha usado uma policia desenvolvimentista terá feito um governo de esquerda.

Diante disso a lista de ídolos da Direita que teriam que ser “esquerdizados” para atender a metodologia rigorosa dos novos direitistas é infinita nem mesmo o grande herói da direita atual o presidente Ronald Reagan se salva desse novo macarthismo. Que Reagan foi um grande defensor do mercado livre e do estado mínimo isso é um fato porem uma coisa é o discurso outra coisa é a pratica.

Em 1980, último ano de Jimmy Caner como presidente, o governo federal gastou uma gritante 27,9% de renda nacional .Reagan criticou o grande numero de gastos da administração Carter ao longo de sua campanha em 1980. Então o que a administração Reagan fez? No final do primeiro trimestre de 1988, os gastos federais foram responsáveis por 28,7% da “renda nacional”.

Alguns poderiam dizer que Reagan cortou impostos logo diminui o governo mas como é bom lembrar:

Antes de olhar para a tributação sob Reagan, devemos notar que os gastos é o melhor indicador do tamanho do governo. Se o governo corta impostos, mas não gastar, ele ainda recebe o dinheiro de algum lugar, quer através de empréstimos ou de inflar. De fato o dinheiro que Reagen gastava tinha que vir de algum lugar o resultado foi que a divida americana saltou de 900.000 milhões dólares para US $ 2,7 trilhões.

Alguns conservadores justificam os gastos de Reagan dizendo que eram necessários para financiar a corrida armamentista contra a URSS eu não irei falar disso nesse texto pois ira desviar o foco mas o aumento de gastos não se resumiu apenas ao setor militar: O orçamento para o Departamento de Educação, que candidato Reagan prometeu abolir juntamente com o Departamento de Energia, mais do que duplicou para 22,7 bilhões dólares, os gastos da Previdência Social aumentaram de $ 179.000.000.000 em 1981 para 269 bilião dólares em 1986. O preço dos programas agrícolas passou de 21.400 milhões dólares em 1981 para 51.400 milhões dólares em 1987, um aumento de 140% . Os gastos do Medicare em 1981 foram 43.500 milhões dólares, em 1987, chegaram a US $ 80 bilhões.

Também é bom lembrar que ouve protecionismo em seu governo:

A administração Reagan foi o mais protecionista desde Herbert Hoover. A parcela das importações sob restrição dobrou desde 1980. Quotas e os chamados restrições voluntárias foram impostas em uma série de produtos, desde chips de computador para automóveis.

Ameaçadoramente, Reagan adotou a dicotomia fair-trade/free-trade falso, e ele estava ansioso para assinar o grande projeto comercial, que se inclina às leis comerciais ainda mais para o protecionismo.

Além de um aumento de funcionários públicos:

Até agora, não deve ser surpreendente que o tamanho da burocracia também cresceu. Hoje, existem mais de 230.000 funcionários públicos civis do que em 1980, elevando o total para quase três milhões. Reagan ainda promoveu a criação de um novo Departamento Federal de Assuntos dos Veteranos para juntar os Departamentos de Educação e Energia, que seu governo deveria eliminar.

Se os critérios de classificação dos novos direitistas continuarem tão rígidos quanto estão agora resta saber se na futuro existira algum governo que possa ser reconhecido como de Direita.

PS: Alguns leitores podem ter estranhado alguns artigos do Mises como referencia. Eu usei essas justamente porque são insuspeitas de cometerem qualquer fraude seja em números ou em relatos históricos que pudessem beneficiar a esquerda.

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-44782012000100007&script=sci_arttext

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1406

http://mises.org/daily/1450

http://mises.org/freemarket_detail.aspx?control=488

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A esquerda e o iphone

Confesso que não sabia bem o que era um iphone até ouvir esse tipo de frase de efeito: “é comunista/socialista, mas usa iphone”. Só então descobri que era uma marca comercial específica de smartphone, que não é a mesma coisa que um ipod.

Descobri isso graças à wikipedia, uma enciclopédia virtual construída por cooperação voluntária, usando um computador fabricado por alguma empresa capitalista, mas inventando em universidades públicas, através do sistema operacional Linux, software livre, produzido por cooperação voluntária, acessando a internet, rede de comunicação criada no setor público militar dos Estados Unidos, e das redes de telecomunicação via satélite, uma invenção soviética. No dia em que fiz essa descoberta sobre smartphones e ipods, comi três refeições de alimentos produzidos pela agropecuária, uma invenção das comunidades tribais neolíticas. Tenho certeza que vários produtos que utilizei hoje tem origens heterogêneas, em culturas capitalistas, socialistas, feudais, escravistas, camponesas, nômades, etc, originadas em uma, aperfeiçoadas em outras, e assim por diante.

É praticamente impossível mapear a origem da técnica e o processo econômico pelo qual passaram os produtos que eu utilizo no meu cotidiano. Pelo meu conhecimento histórico e sociológico, presumo que algumas coisas que consumo passam, em pelo menos um elo da produção, pela devastação ecológica e trabalho escravo ou precário. Alguns são de grandes marcas, outros de pequenos produtores, alguns de cooperativas.

O que eu nunca fui capaz de descobrir é qual é a contradição entre ser de esquerda e usar algum produto tecnológico. Pessoas de mentalidade conservadora/direitista pensam saber o que é ser de esquerda e poder ensinar para quem é de esquerda o que significa sê-lo. E o que parece se depreender de uma postura de esquerda coerente, segundo os reacionários, é ser um eremita. Afinal, nada melhor para a direita se toda a esquerda fosse morar em comunidades hippies ou em Cuba. Os ricos respirariam aliviados, pois seus inimigos não criariam problemas gravíssimos, como denunciar injustiças e participar de mobilizações populares.

Não direi que estão completamente incorretos em algumas críticas. Não sou extremista. É realmente “feio” alguém da esquerda anticapitalista ter um comportamento consumista, fazendo questão de esbanjar riquezas e acumulando coisas desnecessárias.

Muito pior que isso, no entanto, é defender abertamente e incentivar o consumismo individualista e desenfreado como privilégio de alguns bem-nascidos, estigmatizando quem sofre com baixos salários ou desempregado como “vagabundos” e coisas semelhantes. É muito mais “feio” naturalizar desigualdades extremas, patrimônios exorbitantes e exclusão social. Porque aí não se trata apenas de um comportamento privado “feio”. É também o comportamento público horrendo. É uma conduta integralmente perversa.

Uma parte importante da esquerda busca uma reforma dentro dos limites do capitalismo, para redução das desigualdades, exclusão e exploração mais extremas. Outros tentam ir além, procurando meios de superação do modo de produção capitalista. A questão chave é a redistribuição dos produtos e meios do trabalho que se encontram concentrados nas mãos, principalmente, de quem não trabalha, mas é proprietário do capital.

De uma perspectiva de esquerda, ou seja, do igualitarismo social, não há lugar para repúdio à tecnologia, apenas as suas funções e usos numa sociedade injusta. Não condenamos todo e qualquer uso da energia nuclear, se denunciamos o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki como um ato genocida. A energia nuclear tem muitos usos pacíficos. Da mesma forma que os iphones e ipods provavelmente tem outros usos, além da ostentação consumista.

O problema para a esquerda não é a tecnologia dos ipods e iphones, é a falta de acesso universal à alimentação, moradia, vestuário, transporte coletivo, educação, saúde, aposentadoria e trabalho digno. E também a cultura e meios de comunicação. É a existência de uma ínfima minoria riquíssima, em contraste com grandes massas relativa ou absolutamente pobres e desamparadas.

O que impõe limites à difusão dos ipods e iphones não é a esquerda. É o planeta. Os recursos são limitados, e a generalização de um padrão de consumo como o dos estadunidenses (que são pouco menos de 5% da população mundial e concentram 25% da renda, além de consumir 30% do petróleo), exigiria quatro planetas. Aí é que há limitação legítima do consumo: pela sustentabilidade ecológica de longo prazo. É por isso que melhorar e expandir o transporte coletivo e ciclovias é preferível a universalizar o casso pessoal. Em qualquer um desses casos, trata-se de uma questão coletiva, objeto de políticas públicas, e não de escolhas privadas.

Isso significa que o homem ou mulher de esquerda, como já disseram muitos reacionários, deveria doar sua renda individual? Esse ato seria indiferente. Não é raro que o esquerdista que siga esse conselho seja em seguida acusado de demagogo… Parece que é impossível a pessoa de esquerda ser coerente, não acham? Na verdade, a filantropia é uma escolha privada. A opção pela esquerda é política, diz respeito a decisões de alcance coletivo, e, primeiramente, ao modo de governar e utilizar o Estado.

A economia capitalista certamente não funcionaria caso todos os ricos fossem adeptos da total filantropia, e escolhessem viver com uma renda equivalente a um salário modesto, dividindo todo o resto. Afinal, quem trabalharia para produzir a riqueza?

A esquerda não defende a filantropia, que é uma escolha privada, possível apenas para quem já tem muito mais do que precisa. A filantropia se baseia uma relação de dependência entre o doador e o beneficiário. Às vezes o filantropo tira maior benefício para si deste ato, pois adquire prestígio e influência (e em muitos casos, consegue esconder a sonegação de grandes somas). A esquerda promove a solidariedade, que é a ajuda mútua entre iguais, e políticas públicas, ativas e coativas de redistribuição de renda.

Sim, coativas. Um imposto de renda progressivo é coação. Qualquer imposto é coercitivo – então que ao menos seja justo. Esse imposto arrecadado deve ser direcionado para um investimento social eficiente, que beneficie aos mais pobres (Bolsa-Família, reforma agrária, etc) ou a todos (educação e saúde públicas, transporte coletivo, etc).

Antes que digam que isso é um atentado à liberdade, gostaria de lembrar que a propriedade privada é tremendamente coativa. A propriedade privada é exclusiva: o bem é apropriado por um, que faz dele o que bem entender, quando é excluído do usufruto de todos os outros. Grande parte da violência policial e encarceramento é repressão aos crimes contra a propriedade privada. Grande parte da criminalidade de rua é tentativa de obter propriedade privada por meios ilegais. Qual liberdade proprietária tem o miserável, que nada tem para si? A liberdade individual do pobre é ser escravizado pela necessidade. Uma redistribuição de riquezas desigualmente distribuídas é a maior promoção da liberdade, pouco importando que seja realizada mediante coerção política e jurídica.

Ser de esquerda, portanto, não é ser contra qualquer tecnologia X por ter sido inventada numa sociedade capitalista, feudal ou escravista, mas, pelo contrário, lutar pela socialização dos benefícios do progresso tecnológico. E desde que (re)descobrimos a finitude dos recursos do planeta, de um modo que não comprometa o futuro dos nossos filhos, netos e bisnetos.

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A repressão durante o período stalinista na URSS: instigando o debate

Os propagandistas do anticomunismo lunático adora divulgar números demograficamente impossíveis de “vítimas do comunismo”. Estas cifras fantásticas se resumem a produtos de especulação, concebidas como instrumento de propaganda política da extrema-direita em geral. O objetivo não é compreender a estrutura dos Estados autodeclarados “socialistas”, sob governos de partidos comunistas, mas apenas demonizar, para legitimar o uso do Terrorismo de Estado na política externa ou interna. O que não quer dizer que se deve tomar o caminho oposto, da glorificação e santificação. É preciso compreender, e só a pesquisa metódica rigorosa, baseada em sólida informação, é que pode servir a este propósito. Compartilhamos o artigo de Mario Sousa, que trás uma exposição de resultados da historiografia séria da chamada “nova sovietologia”.

Mentiras sobre a história da União Soviética.

De Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn!

História dos supostos milhões de presos e mortos nos campos de trabalho e pela fome na União Soviética no tempo de Stáline.

Neste mundo em que vivemos, quem consegue escapar às  terríveis histórias de mortes suspeitas e assassínios nos campos de trabalho Gulag na União Soviética? Quem consegue escapar às histórias de milhões de mortos pela fomes e de milhões de opositores executados na União Soviética no tempo de Stáline? No mundo capitalista repetem-se estas histórias  em livros, jornais, radio, televisão e filme numa quantidade infinita e o mito de dezenas de milhões de vitimas que o socialismo teria causado tem crescido sem limites nos últimos cinquenta anos.

Mas na realidade, de onde vêm estas histórias e estes números? Quem é que está por detrás disto?

E outra pergunta: o que há de verdade nessas histórias? Por exemplo, qual é a informação existente nos arquivos da União Soviética, anteriormente secretos, mas abertos por Gorbatchov à investigação histórica em 1989? Segundo os inventores dos mitos, todas as histórias de milhões de mortos na União Soviética de Stáline se confirmariam no dia em que os arquivos fossem abertos. Foi o que aconteceu? Foi confirmado?

O artigo que segue mostra-nos de onde vêm e quem está por detrás das histórias dos milhões de mortos pela fome e nos campos de trabalho na União Soviética de Stáline. O autor do texto, depois de ter estudado o resultado das investigações feitas nos arquivos da União Soviética  dá-nos também informação em dados concretos sobre o verdadeiro número de presos, anos de prisão e o verdadeiro número de mortos e de condenados à morte na União Soviética de Stáline. A realidade é bem diferente do mito!

O autor do texto, Mário Sousa, é militante do partido comunista, KPML(r) na Suécia. O artigo foi escrito em sueco para o jornal do partido, Proletären – O Proletário – onde foi publicado em Abril de 1998. A tradução é do autor.

Em linha recta através da história – de Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn.

No ano de 1933 a politica alemã sofre modificações que vão deixar marcas na história mundial durante dezenas de anos. Em 30 de Janeiro Hitler é nomeado primeiro ministro e um nova maneira de governar, com violência e sem respeito pelas leis, começa a tomar forma. Para consolidar o poder, os nazis marcam novas eleições para 5 de março utilizando toda a propaganda ao seu alcance para assegurar um resultado vitorioso. Uma semana antes das eleições, em 27 de fevreiro, os nazis incendeiam o parlamento e acusam os comunistas de serem eles os incendiários. O partido comunista é proibido e muitos comunistas são presos. Nas eleições que se seguiram os nazis obtiveram 17,3 milhões de votos e 288 deputados, cerca de 48% do eleitorado. (em novembro de 1932 tinham tido 11,7 milhões de votos e 196 deputados). Depois da proibição do partido comunista, os nazis começaram a perseguir os socialdemocratas e o movimento sindical e os primeiros campos de concentração começaram a encher-se com todos esses homens e mulheres de esquerda. Entretanto continou a aumentar o poder de Hitler no parlamento com a ajuda da direita. No dia 24 de março Hitler fez passar uma lei no parlamento que lhe deu poderes totais para governar o país durante quatro anos sem necessidade de consulta parlamentar. A partir daí começaram as perseguições abertas aos judeus e os primeiros deram entrada nos campos de concentração onde já se encontravam comunistas e socialdemocratas de esquerda. Hitler continuou a marcha pelo poder total, cortando com todos os acordos internacionais de 1918 que impunham  restrições ao armamento e militarização da Alemanha. O rearmamento da Alemanha faz-se a grande velocidade. Esta era a situação politica internacional quando o mito dos milhões de mortos na União Soviética se começou a formar.

A Ucrânia como uma parte do espaço alemão.

Ao lado de Hitler no comando da Alemanha estava o ministro da propaganda, Goebells, o máximo responsável para incutir o sonho nazi no povo alemão. Este era o sonho do povo da raça pura vivendo numa Grande Alemanha, um país com um grande “lebensraum”, um grande espaço para viver. Uma parte deste “lebensraum”, uma área muito maior do que a Alemanha, iria ser conquistada no Este e incorporada na nação alemã. Em 1925 no livro Mein Kampf já Hitler tinha indicado a Ucrânia como uma parte integrante do espaço alemão. A Ucrânia e outras regiões no Este da Europa iriam pretencer à nação alemã para poderem ser utilizadas de uma maneira “correta”. Segundo a propaganda nazi, a espada alemã iria libertar essa terra para dar lugar ao arado alemão! Com técnica alemã e empresas alemãs a Ucrânia iria ser transformada na terra produtora de cereais da Alemanha! Mas primeiro teriam os alemães que libertar a Ucrânia do seu povo de “seres humanos inferiores”, os quais, segundo a propaganda nazi, seriam utilizados como força de trabalho escrava nas casas, fábricas e agriculturas alemãs, em todos os lugares onde a economia alemã necessitasse deles.

A conquista da Ucrânia e de outras regiões da União Soviética implicava necessáriamente guerra contra a União Soviética, o que era necessário preparar a longo termo. Para esse efeito o ministério de propaganda nazi, chefiado por Goebbels, iniciou em 1934 uma campanha sobre um suposto genocídio feito pelos bolcheviques na Ucrânia, uma terrivel catastrofe de fome que teria sido provocada por Stáline para submeter e obrigar os camponeses a aceitar a politica socialista. O objetivo da campanha nazi era de preparar a opinião pública mundial para a “libertação” da Ucrânia pelas tropas alemãs. Apesar de grandes esforços e embora alguns textos da propaganda alemã fossem públicados na imprensa inglêsa, a campanha nazi sobre o “genocídio” na Ucrânia não teve grande susseço a nível mundial. Era evidente que Hitler i Goebbels necessitavam de ajuda para espalhar as calúnias sobre a União Soviética. A ajuda foi encontrada nos Estados Unidos da América!

William Hearst, um amigo de Hitler.

William Randolph HEARST é o nome do multimilionário americano que veio ajudar os nazis na guerra psicologica contra a União Soviética. Hearst é o redactor americano conhecido como sendo o “pai” da chamada imprensa amarela, a imprensa sensacionalísta. William Hearst começou a carreira de redactor em 1885, quando o seu pai George Hearst, milionário da indústria mineira, senador e redactor, lhe deu a chefia do jornal São Francisco Daily Examiner. Assim começou também o império jornalistico de Hearst que de uma maneira definitiva iria deixar marcas profundas na vida e nos conceitos dos norteamericanos. Depois da morte do pai, William Hearst vendeu todas as acções da indústria mineira que herdou e começou a investir o capital no mundo jornalistico. A primeira compra que fez foi o New York Morning Journal, um jornal de tipo tradicional que Hearst transformou totalmente num jornal sensacionalístico. As notícias eram compradas a qualquer preço e quando não havia crueldades ou crimes violentos para contar cabia aos jornalistas i fotógrafos “arranjar” o assunto. É justamente esta a marca da “imprensa amarela”, a mentira e a crueldade arranjada e servida como verdade.

As mentiras de Hearst fizeram dele milionário e pessoa importante no mundo jornalístico, sendo em 1935 um dos homens mais ricos do mundo com uma fortuna avaliada em 200 milhões de dolares. Depois da compra do Morning Journal, Hearst continuou a comprar e fundar jornais diários e semanários por todos os EUA. Na década dos anos 40, William Hearst era proprietário de 25 jornais diários, 24 semanários, 12 estações de radio, 2 serviços de noticias mundiais, um serviço de notícias para filme, a empresa de filme Cosmopolitan e muito mais. Em 1948 comprou uma das primeiras estações de televisão dos EUA, a WBAL-TV em Baltimore. Os jornais de Hearst vendiam 13 milhões de exemplares diários com cerca de 40 milhões de leitores! Quase um terço da população adulta dos EUA lia diáriamente os jornais de Hearst! E além disso muitos milhões de pessoas em todo o mundo recebiam a informação da imprensa de Hearst através dos serviços de noticías, filmes e uma série de revistas que eram traduzidas e editadas em grandes quantidades em todo o mundo. Os números acima citados mostram bem de que maneira o império de Hearst influenciou a vida politica americana e a vida politica do mundo em geral durante muitos anos. (entre outras coisas contra a participação dos EUA na segunda guerra mundial pelo lado da União Soviética e nas campanhas anti comunistas de McCarty na década 50).

Os conceitos de William Hearst eram extremamente conservativos, nacionalistas e anti-comunistas. A sua politica era a politica da extrema direita. Em 1934 fez uma viagem à Alemanha onde foi recebido por Hitler como convidado e amigo. Depois desta viagem os jornais de Hearst  tornaram-se ainda mais reacionários, sempre com artigos contra o socialismo, contra a União Soviética e em especial contra Stáline. Hearst tentou também utilizar os seus jornais para  fazer propaganda nazi abertamente, com uma série de artigos de Göring, a mão direita de Hitler. No entanto os protestos de muitos leitores obrigaram-no a parar a publicação e retirar os artigos.

Depois da visita a Hitler os jornais sensacionalistas de Hearst vinham cheios de “revelações” sobre acontecimentos terríveis na União Soviética como assassinios, genocídios, escravidão, luxo para os governantes e fome para o povo, sendo estas as grandes “notícias” diárias. O material era dado a Hearst pela Gestapo, a policia política da Alemanha nazi. Nas primeiras páginas dos jornais havia muitas vezes caricaturas och imagens falsas da União Soviética onde Stáline era retratado como um assassino de faca na mão. Não esqueçamos que estes artigos eram lidos diariamente por 40 milhões de pessoas nos Estados Unidos e milhões de outras em todo o mundo!

O mito da fome na Ucrânia

Uma das primeiras campanhas da imprensa de Hearst contra a União Soviética foi sobre os supostos milhões de mortos, vitimas da fome na Ucrânia. A campanha iniciou-se em 18 de fevreiro de 1935 no jornal Chicago American com um titulo na primeira página, “Seis milhões de mortos de fome na União Soviética”. Utilizando material vindo da Alemanha nazi começou assim o simpatizante do nazismo e magnata da imprensa William Hearst a publicar histórias fantásticas sobre um genocidio provocado pelos bolcheviques com muitos milhões de mortos de fome na Ucrânia. A realidade era bem diferente. O que se tinha passado na União Soviética no principio da década de 1930 foi uma grande luta de classes em que os camponeses pobres e sem terra se levantaram contra os grandes agrários ricos, os kulaks, e iniciaram a luta pelos colectivos agricolas, os kolchozes. Esta grande luta de classes que envolvia directa ou indirectamente 120 milhões de camponeses causou instabilidade na produção agrícola e em algumas regiões falta de produtos alimentares. A falta de comida enfraquecia as pessoas, o que contribuiu para um aumento de vitimas de epidemias infecciosas. Este tipo de epidemias era nessa altura um acontecimento tristemente comum no mundo. De 1918 a 1920 uma epidemia infecciosa conhecida como a gripe espanhola fez milhões de mortos nos EUA e na Europa (mais de 20 milhões), mas nunca ninguém  acusou os governos desses paises de matarem os seus cidadãos. O facto é que os governos nada podiam fazer contra epidemias desta espécie. Só com o aparecimento da penicilina durante a segunda guerra mundial é que as epidemias infecciosas poderam começar a serem combatidas com exito no fim da década de 1940.

Os artigos na imprensa de Hearst sobre os milhões de mortos de fome na Ucrânia que tinha sido “provocada pelos comunistas” eram detalhados e terriveis. A imprensa de Hearst utilizou tudo ao seu alcançe para fazer da mentira realidade, provocando a opinião pública nos países capitalistas a voltar-se fortemente contra a União Soviética. Assim se originou o primeiro grande mito dos milhões de mortos na União Soviética. Na vaga de protestos contra a fome “provocada pelos comunistas” que se seguiu na imprensa ocidental ninguém quiz escutar os desmentidos da União Soviética, sendo o completo desmascaramento das mentiras da imprensa de Hearst em 1934, adiado até 1987! Durante mais de 50 anos e na base destas calunias, várias gerações de pessoas em todo o mundo foram levadas a formar uma visão negativa do socialismo e da União Soviética.

O império massmedial de Hearst ano 1998!

William Hearst morreu em 1951 na sua casa em Beverly Hills na Califórnia. Hearst deixou um império massmedial que ainda hoje continua a espalhar a sua mensagem reacionária por todo o mundo. A empresa The Hearst Corporation é uma das maiores do mundo em que vivemos, reunindo mais de 100 companhias onde trabalham 15 000 pessoas. O império de Hearst abrange hoje jornais, revistas, livros, radio, televisão, TV cabo, agencias de noticias e multimedia.

52 anos para desmascarar uma mentira!

A campanha de desinformação dos nazis sobre a Ucrânia não morreu com a derrota da Alemanha nazi na segunda guerra mundial. As mentiras nazistas foram retomadas pela CIA e pelo MI5 britânico e tiveram sempre um lugar garantido na guerra de propaganda contra a União Soviética. As campanhas anticomunistas de McCarthy nos EUA, depois da segunda guerra mundial, também viveram à custa dos “milhões de mortos de fome da Ucrânia”. Em 1953 foi publicado um livro nos EUA sobre este tema, com o titulo “Black Deeds of the Kremlin” (Os feitos negros do Kremlin). A publicação foi paga por refugiados ucranianos nos EUA, gente que tinha colaborado com os nazis na segunda guerra mundial a quem o governo americano deu asilo político apresentando-os ao mundo como democratas.

Quando Reagan foi eleito presidente dos EUA e iniciou a sua campanha anticomunista na década de 1980, renovou-se a propaganda dos “milhões de mortos na Ucrânia”. Em 1984 um professor da Universidade de Havard editou um livro com o titulo de “Human life in Rússia” (Vida humana na Rússia) em que estava incluido o material falso da imprensa nazi de Hearst de 1934. Em 1984 foram assim reeditadas as mentiras e falsificações nazistas dos anos 30 mas agora com a capa respeitável de uma universidade americana. Mas a história não fica por aqui. Já em 1986 saiu mais um livro sobre o tema, com o titulo “The Harvest of Sorrow”, escrito pelo anterior agente da policia secreta britanica Robert Conquest que é hoje professor da Universidade de Stansfort na California. Pelo “trabalho” com o livro Conquest recebeu 80.000 dolares da Ukraina National Association. A mesma assossiação pagou também um filme feito em 1986, o “The Harvest of Despair”, em que, entre outras coisas, se utilizou o material de Conquest. Nesta altura já os números apresentados nos EUA dos “mortos de fome na Ucrânia” iam em 15 milhões de pessoas!

No entanto os milhões de mortos de fome na Ucrânia apresentados na imprensa americana de Hearst e a sua utilização em livros e filmes era material completamente falso. O jornalista canadiano Douglas Tottle demonstrou rigorosamente essa falsificação no seu livro “Fraud, Famine and Fascism, The Ukrainian Genocide Myth from Hitler to Havard” editado em Toronto em 1987. Entre outras coisas Tottle mostrou que o material fotográfico apresentado, fotografias horriveis de crianças esfomeadas, foi tirado de publicações do ano de 1922 numa altura em que milhões de pessoas morreram na guerra e de fome, quando oito exércitos estranjeiros invadiram a União Soviética durante a guerra civil de 1918 – 1921. Douglas Tottle apresenta também os factos sobre a reportagem da fome, feita em 1934 e demonstra a mixórdia de mentiras publicadas na imprensa de Hearst.

O jornalista que durante muito tempo tinha enviado reportagens e fotografias das chamadas zonas da fome, um certo Thomas Walter, nunca tinha estado na Ucrânia, mas apenas estado em Moscovo durante cinco dias. Este facto foi revelado pelo jornalista Louis Fischer, o então correspondente de Moscovo do jornal americano The Nation. Fisher revelou também que o jornalista M. Parrott, o verdadeiro correspondente em Moscovo da imprensa de Hearst, tinha enviado a Hearst reportagens que nunca foram publicadas, sobre as ceifas com muito bons resultados em 1933 na União Soviética e sobre uma Ucrânia soviética em desenvolvimento. Tottle mostra-nos também que o jornalista que fez as reportagens sobre a suposta fome para Hearst, o tal Thomas Walker, na realidade se chamava Robert Green, um condenado escapado da prisão estatal do Colorado! Este Walker, ou seja Green, foi preso no retorno aos EUA e confessou em tribunal nunca ter estado na Ucrânia. Todas estas mentiras sobre os milhões de mortos de fome na Ucrânia nos anos 30, uma fome que teria sido provocada por Stáline, só vieram a ser conhecidas e desmascaradas em 1987! O nazista Hearst, o agente da policia Conquest e outros, têm intrujado milhões de pessoas com as suas mentiras e falsas reportagens. Ainda hoje aparecem as histórias do nazi Hearst em livros recem editados, de escritores pagos pela direita.

A imprensa de Hearst com uma posição monopolista em muitas cidades nos EUA e com agencias de notícias em todo o mundo foi o grande megafone da Gestapo. Num universo dominado pelo capital monopolista foi possivel à imprensa de Hearst transformar as mentiras da Gestapo em verdades e faze-las sair em muitos jornais, estações de radio e mais tarde na televisão em todo o mundo. Quando a Gestapo desapareceu, continuou a guerra suja da propaganda contra o socialismo e a União Soviética, agora com a CIA como patrão. As campanhas anticomunistas na imprensa americana continuaram na mesma escala. “Business as usual” – negócio como sempre, primeiro a Gestapo, depois a CIA.

Robert Conquest – o centro dos mitos.

Este homem ampliamente citado na imprensa burguesa, um verdadeiro oráculo para a burguesia, merece aqui uma apresentação muito concreta. Robert Conquest é um dos autores que mais tem escrito sobre os “milhões de mortos na União Soviética”, na realidade o verdadeiro “pai” de quase todos os mitos e mentiras sobre a União Soviética difundidos depois da segunda guerra mundial. Conquest é conhecido principalmente pelos seus livros “O grande terror” de 1969 e “Harvest of Sorrow” (Colheita de amargura) de 1986. Conquest escreve sobre milhões de mortos de fome na Ucrânia, nos campos de trabalho Gulag e durante os processos de 1936 a 1938 utilizando como fontes de informação os exilados ucranianos nos EUA pertencentes aos partidos de direita que haviam colaborado com os nazistas na segunda guerra mundial. Muitos dos herois de Conquest são conhecidos como criminosos de guerra que comandaram e participaram no genocidio dos judeus na Ucrania. Um destes é Mykola Lebed, condenado como criminoso de guerra depois da segunda guerra mundial. Lebed era o chefe de segurança em Lvov durante a ocupação nazi e as terriveis perseguições aos judeus em 1942. Em1949 a CIA levou Lebed para os Estados Unidos onde tem trabalhado como desinformador.

O estilo nos livros de Conquest é de um anticomunismo violento e fanático. No livro de 1969 diz-nos Conquest que o número de mortos na fome na União Soviética nos anos 1932-33 foi de 5 a 6

milhões de pessoas, metade delas na Ucrânia. Mas em 1983, durante a campanha anticomunista de Reagen, já Conquest aumentava os anos de fome até 1937 e os mortos até 14 milhões! Tal declaração valeu-lhe um trabalho bem pago quando em 1986 foi escolhido por Reagen para escrever o material do livro da campanha presidencial com o fim de preparar o povo americano para uma invasão soviética… O livro chama-se “Que fazer quando os russos vierem, um manual de sobrevivencia”! Um trabalho estranho para um professor de história…

Na realidade isto não é estranho para um homem que em toda a sua vida tem vivido à custa de mentiras e histórias inventadas sobre a União Soviética e Stáline, primeiro como agente da polícia e depois como escritor e professor da Universidade de Stansfort na California. O passado de Conquest foi exposto no jornal The Gardian em 27 de Janeiro de 1978 num artigo que o apontava como um ex-agente do departamento de desinformação IRD – Information Research Departement, do serviço secreto inglês. O IRD foi uma secção iniciada em 1947 (com o nome inicial de Communist Information Departement) tendo como tarefa principal combater a influencia dos comunistas em todo o mundo através de “plantar” histórias escolhidas no seio dos politicos, jornalistas e todos os que influenciavam a opinião pública.

As actividades do IRD eram muito amplas, tanto em Inglaterra como no exterior. Quando o IRD teve que ser formalmente extinto em 1977, por causa de contactos com a extrema direita, verificou-se que, só em Inglaterra, mais de 100 dos jornalistas mais conhecidos tinham pessoalmente um contacto com um agente do IRD que regularmente dava ao “seu” jornalista material para os artigos a escrever. Isto era rutina nos grandes jornais ingleses tais como o Financial Times, Times, Observer, Sunday Times, Telegraph, Ekonomist, Daily Mail, Mirror, Express, Guardian e outros. Os factos apresentados pelo jornal The Gardian dão-nos assim uma indicação de como a policia politica dirige as noticias que chegam ao grande público.

Robert Conquest foi agente da IRD desde o começo desta secção da policia secreta e até 1956. O “trabalho” de Conquest era escrever as chamadas “histórias negras” sobre a União Soviética, histórias falsas consideradas como factos, a serem distribuidas a jornalistas e outras pessoas com infuencia na opinião pública. Depois de ter formalmente deixado a IRD, Conquest continuou a escrever textos propostos pela IRD e com o apoio dessa polícia. O seu livro “O grande Terror”, livro básico da direita sobre os “milhões de mortos” durante a luta partidária na União Soviética em 1937, é na realidade um compilado de textos que ele secreveu durante a sua vida como agente da IRD. O livro foi acabado e publicado com o apoio da IRD. Um terço dos livros impressos foram comprados pela editorial Praeger que normalmente é conhecida por publicar literatura com origem na policia politica americana, a CIA. O livro de Conquest tem sido utilizado para ser dado como presente aos chamados “idiotas úteis”, a professores universitários e a gente que trabalha na imprensa, radio e televisão, para garantir que as mentiras de Conquest e da extrema direita continuem a ser espalhadas por grandes camadas da população. Conquest é ainda hoje uma das fontes mais importantes onde os históriadores de direita vão buscar material sobre a União Soviética.

Alexander Solzhenitsyn

Uma outra pessoa sempre associada a livros e artigos de jornal sobre supostos milhões de mortos e presos na União Soviética é o russo Alexander Solzhenitsyn. Solzhenitsyn tornou-se conhecido no mundo capitalista nos fins dos anos 60 com o seu livro “O arquipelago do Gulag” sobre a situação dos presos nos campos de trabalho na União Soviética. Ele mesmo esteve preso oito anos condenado por actividades contrarevolucionárias em 1946 por ter distribuido propaganda contra o povo da União Soviética. Segundo Solzhenitsyn a luta contra a Alemanha nazi na segunda guerra mundial tinha sido uma luta desnecessária e todos os sofrimentos impostos ao povo soviético pelos nazis podiam ter sido evitados se o governo soviético tivesse feito um compromisso com Hitler. Solzhenitsyn acusou também o governo soviético e Stáline de serem ainda piores que Hitler e, como ele dizia, pelos terríveis resultados da guerra para o povo da União Soviética. Solzhenitsyn não escondia a sua simpatia pelos nazistas. Foi condenado como traidor.

Solzhenitsyn começou em 1962 a publicar livros na União Soviética com o consentimento e ajuda de Nikita Krustjov, sendo o primeiro livro publicado “Um dia na vida de Ivan Denisovitjs” sobre a vida de um preso. Krustjov utilizava os textos de Solzhenitsyn para combater a herança socialista de Stáline. Solzhenitsyn ganhou em 1970 o Prémio Nobel da literatura com o livro “O arquipelago de Gulag”. Os seus livros começaram então a ser publicados em grandes quantidades nos países capitalistas, tornando-se o autor um dos instrumentos mais importantes do imperialismo no combate ao socialismo e à União Soviética. Aos seus textos sobre os campos de trabalho juntou-se outra propaganda sobre os supostos milhões de mortos na União Soviética o que foi utilizado nas massmedias capitalistas como sendo verdades. Em 1974 Solzhenitsyn deixou a seu pedido de ser cidadão soviético emigrando para a Suiça e mais tarde para os Estados Unidos. Nesta altura era considerado na imprensa capitalista como o maior lutador pela liberdade e democracia. As suas simpatias nazis foram enterradas para não preturbar a guerra de propaganda contra o socialismo.

Nos Estados Unidos, Solzhenitsyn foi convidado muitas vezes para fazer interverções em reuniões importantes. Ele foi por exemplo o principal orador no congresso dos sindicatos AFL-CIO em 1975 e em 15 de Julho de 1975 foi convidado para fazer um discurso sobre a situação no mundo no Senado dos EUA! Os discursos de Solzhenitsyn eram de uma agitação violenta e provocativa, argumentando e fazendo propaganda pelas ideias mais reacionárias. Entre outras coisas bateu-se por novos ataques ao Vietnam depois da vitória deste sobre os EUA. E mais: depois de 40 anos de fascismo em Portugal, quando os oficiais do exército de esquerda, tomaram o poder na revolução popular de 1974, Solzhenitsyn começou a fazer propaganda por uma intervenção militar dos EUA em Portugal, que, dizia ele, iria ser membro do tratado de Varsóvia se os EUA não intrevissem! Nos seus discursos, Solzhenitsyn lamentava sempre a libertação das colónias portuguesas em África.

Mas é claro que o ponto principal dos discursos de Solzhenitsyn era sempre a guerra suja contra o socialismo. Desde execuções supostas de milhões e milhões de pessoas na União Soviética até às dezenas de milhares de americanos presos e escravisados que Solzhenitsyn dizia existirem no Vietnam do Norte! Foi esta ideia de Solzhenitsyn de americanos utilizados como escravos no Vietnam do Norte que deu origem aos filmes Rambo sobre a guerra do Vietnam. Os jornalistas americanos que tinham ousado escrever sobre paz entre os EUA e a União Soviética eram acusados por Solzhenitsyn nos seus discursos como sendo traidores potenciais. Solzhenitsyn fazia também propaganda por um aumento da capacidade militar dos EUA contra a União Soviética, que ele dizia ser mais poderosa em “tanques e aviões, de cinco a sete vezes mais que os EUA” e em armas atómicas que “em breve” seriam “duas, três e por fim cinco” vezes mais potentes que as dos EUA. Os discursos de Solzhenitsyn nos EUA eram a voz da extrema direita, mas ele iria ainda mais longe, mais à direita, em apoio público ao fascismo.

Em apoio do fascismo de Franco.

Depois da morte de Franco em 1975 o regime fascista espanhol começou a perder o controle da situação politica e no começo de 1976 os acontecimentos em Espanha tomaram um carácter tal que cativou a opinião pública mundial. Greves e demonstrações exigiam democracia e liberdade e o herdeiro de Franco, o rei Juan Carlos, foi obrigado a iniciar uma liberalisação muito cuidadosamente, para acalmar a agitação social. Ora neste momento importante para a vida politica espanhola, aparece Alexander Solzhenitsyn em Madrid e dá uma entrevista ao programa “Directisimo” um sábado á noite, em 20 de Março, na melhor hora televisiva (jornais ABC e Ya de 21 de Março de 1976). Solzhenitsyn que tinha recebido as perguntas préviamente, utilizou a oportunidade para fazer todo o tipo de declarações reaccionárias. A sua inteção não foi de dar um apoio à chamada liberalisação do rei. Ao contrário, Solzhenitsyn prevenia as pessoas contra as reformas democráticas!

Na sua intervenção na televisão declarou que “Cento e dez milhões de russos morreram vítimas do socialismo” e comparou “a escravidão a que estavam submetidos os soviéticos à liberdade que se disfrutava em Espanha”. Solzhenitsyn acusou também os “círculos progressistas” de “utópicos” por considerarem Espanha como uma ditadura. Os progressistas eram toda a oposição democrática de liberais a socialdemocratas e comunistas. “No Outono passado” disse Solzhenitsyn, “a opinião pública mundial estava preocupada com a sorte dos terroristas espanhois. ( Os cinco antifascistas condenados à morte e executados pelo regime de Franco, nota do autor MS) Cada vez mais a opinião pública progressista exige reformas políticas imediatas, ao mesmo tempo que apoia os actos terroristas”. “Os que querem reformas democráticas rápidas, saberão o que virá a suceder amanhã ou depois de amanhã? A Espanha, amanhã poderá ter democracia, mas depois de amanhã, saberá não cair no totalitarismo depois da democracia?” Às perguntas cuidadosas dos jornalistas se tais declarações não podiam ser vistas como um apoio a regimes de países onde não existia liberdade respondeu Solzhenitsyn que “Eu conheço somente um sítio onde não há liberdade, esse sítio é a Rússia”. As declarações de Solzhenitsyn na televisão espanhola foram um apoio directo ao fascismo espanhol, uma ideologia que ele ainda hoje apoia.

Esta é uma das razões porque Solzhenitsyn desapareceu cada vez mais dos discursos públicos durante os seus 18 anos de exilio nos EUA e uma das causas porque os governos capitalistas não lhe dão total apoio politico. Para os capitalistas foi uma benção dos céus poder utilizar um homem como Solzhenitsyn na guerra suja contra o socialismo, mas tudo tem os seus limites. Na nova Rússia capitalista o que dicide o apoio do mundo ocidental aos grupos politicos é pura e simplesmente a possibilidade de fazer bons negócios com bons lucros ao abrigo da política desses grupos. O fascismo como alternativa política para a Rússia não é considerado como politica que estimule os negócios. Por isso o projecto politico de Solzhenitsyn para a Rússia é letra morta no que diz respeito a apoio do mundo ocidental. É que Solzhenitsyn quer como futuro político para a Rússia a volta do regime autoritário dos Czares em ligação com a igreja tradicional russa-ortodoxa! Nem os imperialistas mais arrogantes estão interessados a apoiar uma estupidez politica deste calibre. Para encontrar apoio a Solzhenitsyn no mundo ocidental há que rebuscar na idiotia intelectual da extrema direita.

Nazis, policias e fascistas!

Assim são eles, os mais dignos representantes dos mitos burgueses dos “milhões de mortos e presos na União Soviética” – o nazi William Hearst, o agente da policia Robert Conquest e o fascista Alexander Solzhenitsyn. Conquest tem tido o papel principal, sendo as suas informações utilizadas pelas massemedias capitalistas em todo o mundo e formando inclusivamente uma escola dentro de certas universidades. O trabalho de Conquest é sem dúvida um trabalho de desinformação policial de primeira classe. Na década de 1970 Conquest teve uma grande ajuda de Solzhenitsyn e de uma série de figuras de segunda com Andrei Sakharov e Roy Medvedev. Além disso apareceu um pouco por todo o mundo uma série de especuladores em mortos e presos a quem a imprensa burguesa sempre pagou a preço de ouro. Mas a realidade dos factos foi por fim apresentada e mostra a verdadeira cara de todos estes falsificadores da história. A ordem de Gorbatchov para abrir os arquivos secretos do partido à investigação histórica teve consequencias que ninguém podia previr.

Os arquivos mostram as mentiras da propaganda.

A especulação sobre milhões de mortos na União Soviética é uma parte da guerra suja de propaganda contra a União Soviética e por isso mesmo os desmentidos e esclarecimentos oficiais dos soviéticos nunca foram levados a sério e nunca tiveram lugar na imprensa capitalista. Eram, pelo contrário, alvo de troça, enquanto que aos “especialistas” comprados pelo capital foi dado todo o espaço requerido para difundirem as suas fantasias. Que fantasias eram realmente! O que os milhões de mortos e presos proclamados por Conquest e outros “criticos” têm de comum, é que são producto de apróximações estatísticas falsas e métodos de avaliação sem base cientifica.

Metodos falsos dão milhões de mortos.

Conquest, Solzhenitsyn, Medvedev e outros utilizaram-se de estatística publicada pela União Sovética, por exemplo escrutínios nacionais da população, aos quais adicionaram um suposto aumento populacional sem ter em conta a situação real existente no país. Assim chegaram à conclusão de quantas pessoas deveria de haver no país no final de certos anos. As pessoas que faltavam eram apresentadas como mortos e presos à conta do socialismo. Um método simples mas totalmente falso. Este tipo de “revelação” de acontecimentos políticos tão importantes nunca passaria se a “revelação” fosse sobre o mundo ocidental. Nesse caso teria havido com toda a certeza professores e historiadores que se levantariam contra tal falsificação. Mas como o que estava em causa era a União Soviética, a falsificação tem passado. Um dos motivos é certamente o de que professores e históriadores põem as possibilidades de avançar na carreira profissional em primeiro lugar e só muito depois a honra profissional.

Em números, quais foram afinal as conclusões dos “criticos”?

Segundo Robert Conquest (numa avaliação feita em 1961) tinham morrido 6 milhões de pessoas de fome na União Soviética no principio dos anos 30. Este número foi aumentado por Conquest para 14 milhões em 1986. No que diz respeito aos campos de trabalho Gulag, estavam ali detidos, segundo Conquest, 5 milhões de presos em 1937, antes das depurações no partido no exército e no estado terem começado. Depois das depurações começarem, vieram segundo Conquest, durante 1937-38, mais 7 milhões de presos o que faz um resultado de 12 milhões de presos nos campos de trabalho em 1939! E não esqueça o leitor que estes 12 milhões do Conquest são SOMENTE os presos politicos! Nos campos de trabalho havia também criminosos de delito comum, os quais, segundo Conquest seriam em número muito maior que os presos politicos. Isto significa que, segundo Conquest havia cerca de 25-30 milhões de presos nos campos de trabalho na União Soviética.

Também segundo Conquest foram executados em 1937-39 um milhão de presos politicos enquanto que 2 milhões morreram à fome. Resultado final das depurações de 1937-39 segundo Conquest, 9 milhões de presos politicos e 3 milhões de mortos! Estes números foram em seguida submetidos a “apreciações estatísticas” por Conquest para concluir que os bolcheviques tinham morto nada menos que 12 milhões de presos políticos entre 1930 e 1953. Juntando esses números aos mortos de fome nos anos 30, chega Conquest à conclusão de que os bolchviques haviam morto 26 milhões de pessoas. Numa úlitma apreciação estatística diz Conquest que em 1950 havia 12 milhões de presos politicos na União Soviética!

Alexander Solzhenitsyn utilizou mais ou menos as mesmas apreciações estatísticas que Conquest. Mas usando os metodos pseudo-científicos com outras premissas, chega ainda a conclusões mais

extremas. Solzhenitsyn aceita os numeros de Conquest de 6 milhões de mortos na fome de 1932-33; no entanto, com respeito às depurações de 1936-39 considera que morreram no mínimo 1 milhão por ano! Fazendo um resumo diz-nos Solzhenitsyn que desde as coletivações da agricultura até à morte de Stáline em 1953, tinham os comunistas morto 66 milhões de pessoas na União Soviética. Além disso aponta o governo soviético como culpado pela morte de 44 milhões de russos que ele afirma terem morrido na segunda guerra mundial. A conclusão de Solzhenitsyn é que “110 milhões de russos morreram vítimas do socialismo”. No que diz respeito a presos diz-nos Solzhenitsyn que o número de pessoas nos campos de trabalho em 1953 era de 25 milhões!

Gorbatchov abre os arquivos.

A colecção de números fantásticos acima apresentada, um produto de fantasias muito bem pagas, tem saído na imprensa burguesa desde os anos 60, tendo esses números sempre sido apresentados como factos verdadeiros obtidos na base de métodos científicos. Por detrás desta falsificação estão as policias políticas ocidentais, principalmente a americana  CIA e a inglesa MI5. O impacto dos massmedias na ópinião publica é tão grande que os números hoje são ainda considerados verdadeiros em grandes camadas das populações dos países ocidentais. Esta situação penosa tem piorado. Na própria União Soviética onde Solzhenitsyn e outros criticos conhecidos, como Andrei Sacharov e Roy Medvedev, não encontravam nenhum apoio para os números fantásticos, houve uma mudança significativa em 1990. Na nova “imprensa livre” durante Gorbatchov, tudo o que se opunha ao socialismo era apresentado como positivo, o que teve consequencias desastrosas. Uma inflação sem igual começou a aumentar a quantidade de mortos e presos durante o socialismo, que agora se misturavam num só grupo de dezenas de milhões de “vitimas” dos comunistas.

A histeria na nova imprensa livre de Gorbatchov levou por diante as mentiras de Conquest e Solzhenitsyn. Ao mesmo tempo foram abertos por Gorbatchov os arquivos do Comité Central para investigação histórica, o que era exigido pela imprensa livre. A abertura dos arquivos do Comité Central do Partido Comunista é na realidade a questão central desta história confusa, isto por duas razões. Em parte porque nos arquivos se encontram todos os factos que podem esclarecer a verdade. Mas ainda mais importante porque todos os especuladores de mortos e presos na União Soviética têm dito durante anos e anos que no dia em que os arquivos se abrissem os números por eles apresentados seriam confirmados! Todos os especuladores em mortos e presos afirmaram que assim seria, todos: Conquest, Solzhenitsyn, Sacharov, Medvedev e os demais. Mas quando os arquivos foram abertos e os estudos dos documentos existentes começaram a ser publicados, aconteceu uma coisa muito estranha.

De repente já nem a imprensa livre de Gorbatchov nem os especuladores em presos e mortos estavam interessados nos arquivos!Os resultados das investigações feitas nos arquivos do Comité Central pelos historiadores russos Zemskov, Dougin e Xlevnjuk que se começaram a publicar em 1990 em revistas cientificas, passaram totalmente desapercebidos! Os relatórios com os resultados das investigações históricas iam contra a corrente da inflação em mortos e presos da imprensa livre mas permaneceram desconhecidos. Os relatórios foram publicados em revistas cientificas de pouca venda práticamente desconhecidas do grande público. Os relatórios cientificos não podiam concorrer com a histeria da imprensa, ganhando as mentiras de Conquest e Solzhenitsyn o apoio de muitas camadas da população na União Soviética, hoje Rússia. Também no ocidente, os relatórios dos investigadores russos sobre o sistema correccional durante Stáline, passaram sem noticías de primeira página ou reportagens na televisão. Porquê?

O que dizem os relatórios dos investigadores russos?

Os relatórios da investigação do sistema correctivo soviético são expostos num trabalho com cerca de 9 000 páginas. Os investigadores que escreveram os relatórios são vários sendo os mais conhecidos os históriadores russos V.N. Zemskov, A.N. Dougin e O.V. Xlevnjuk. O seu trabalho foi começado a publicar em 1990 estando em 1993 praticamente acabado e totalmente publicado na Rússia. Os relatórios da investigação chegaram ao conhecimento do ocidente em colaboração com investigadores de diversos países ocidentais. Os dois trabalhos conhecidos pelo autor deste texto, são o trabalho apresentado em França na revista L’Histoire em Setembro de 1993 por Nicolas Werth, chefe investigador do instituto francês de investigação cientifica, CNRS, (Centre National de la Recherche Scientifique) e o trabalho publicado nos EUA na revista The American Historical Review por J. Arch Getty, professor de história da Universidade da California, Riverside em conjunto com G.T. Rettersporn, investigador do instituto francês de investigação CNRS e o investigador russo V.N. Zemskov do instituto de História Russa da Academia das Ciencias Russa.

Existem também hoje em dia livros sobre o assunto escritos pelos investigadores acima mensionados ou por outros investigadores dos mesmos grupos de investigação. Antes de entrarmos no assunto quero deixar aqui esclarecido para que não haja confusão futura, que nenhum dos cientistas envolvidos nestes trabalhos tem uma visão socialista do mundo, mas sim um compreesão burguesa e antisocialista, muitas vezes bastante reaccionária. Isto dito para que o leitor não pense que o que se vai expor é produto de uma “conspiração comunista”. O que acontece quando os investigadores acima citados, desfazem completamente as mentiras de Conquest, Solzhenitsyn, Medvedev e outros, é que o fazem simplesmente pelo facto de que põem a honra profissional em primeiro lugar e não se deixam comprar para efeitos de propaganda.

Os relatórios de investigação russos dão resposta a uma quantidade muito grande de perguntas sobre o sistema correcional soviético. Para nós é o tempo de Stáline que é o mais interessante para estudar, é aí que está a causa da discução. Nós pomos algumas perguntas muito concretas e procuramos as respostas no material das revistas L’Histoire (L’H) e The American Historical Review (AHR). Esta será a melhor maneira de pôr em debate algumas das partes mais importantes do sistema correccional soviético. As perguntas são as seguintes:

1. O que era o sistema correccional soviético?

2. Qual era o número de presos, “politicos” e de delito comum?

3. Quantos mortos houve nos campos de trabalho?

4. Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações

de 1937-38?

5. Qual era em geral o tempo de prisão?

Depois de termos respondido às 5 perguntas, pomos em discussão as penas impostas aos dois grupos mais debatidos quando a questão dos presos e mortos na União Soviética se põe, nomeadamente os kulakos condenados em 1930 e os contrarevolucionários de 1936-38.

Os campos de trabalho no sistema correcional

Começemos com a pergunta 1 sobre o sistema correcional soviético. Depois de 1930 o sistema correcional soviético compreendia prisões, campos de trabalho e colónias de trabalho do Gulag,  zonas especiais abertas e pagamento de multas. Aquele que recebesse voz de prisão era geralmente colocado numa prisão normal enquanto se faziam as investigações que poderiam demonstrar a sua inocencia e dar-lhe liberdade ou levar o caso a julgamento. O acusado levado a julgamento podia ser considerado inocente e ganhar a liberdade ou caso fosse julgado culpado condenado a uma pena de multa, prisão ou em casos mais raros, pena de morte. A pena de multa

podia ser uma certa percentagem do salário durante um certo tempo. Os acusados julgados a pena de prisão podiam ser postos em diferentes tipos de prisão dependendo do tipo de crime.

Para os campos de trabalho Gulag iam os criminosos de crimes graves (homicidio, roubo, violação, crimes económicos, etc.) e uma grande parte dos condenados por actividades contrarevolucionárias. Outros criminosos com pena superior a três anos podiam também ser postos em campos de trabalho. Depois de um tempo num campo de trabalho o preso podia ser mudado para uma colónia de trabalho ou uma zona especial aberta. Os campos de trabalho eram zonas muito grandes onde os condenados viviam e trabalhavam debaixo de um grande controlo. Trabalhar e não ser um peso para a sociedade era coisa evidente, nenhuma pessoa saudavel passava sem trabalhar. Pode ser que alguém hoje em dia pense que isto é terrivel, mas esta era a realidade. O número de campos de trabalho era de 53 em 1940. As colónias de trabalho do Gulag eram 425, unidades muito mais pequenas que os campos de trabalho e com um regime mais livre e com menos controlo. Para aí iam os presos com penas de prisão mais pequenas, tanto de delito comum ou políticos, trabalhando em liberdade em fábricas e na agricultura que eram uma parte da economia da sociedade civíl. Na maioria dos casos o salário desses trabalhos revertia por inteiro ao condenado, em igualdade com os outros trabalhadores. As zonas especiais abertas eram em geral zonas agrícolas para as quais eram exilados os kulakos que tinham sido expropriados durante a colectivação. Outros condenados por penas menores ou actividades contrarevolucionárias podiam também cumprir as penas nestas zonas.

454 mil e não 9 milhões!

Segunda pergunta. Qual era o número de presos “politicos” e de delito comum? A questão inclúi os presos nos campos de trabalho e nas colónias de trabalho do Gulag e nas prisões, ainda que tendo em conta que a privação da liberdade nas colónias de trabalho era na maioria dos casos reduzida. Vejamos os números do quadro abaixo do material da AHR respeitante ao periodo de vinte anos a começar em 1934 quando o sistema correcional foi reunido numa administração central e até 1953 quando Stáline morreu.

 

 

Tabela de The American Historical Review

Da tabela acima há uma série de conclusões a tirar. Para começar podemos comparar os números da tabela com os de Robert Conquest. Este diz-nos que em 1939 havia 9 milhões de presos politicos nos campos de trabalho e que 3 milhões mais tinham morrido durante o periode de 1937-39. Não esqueça o leitor que os números de Conquest se referem apenas a presos políticos! Além desses, diz-nos Conquest que havia os presos de delito comum que segundo ele eram em muito maior número que os “políticos”. Em 1950 havia segundo Conquest 12 milhões de presos politicos! Com os factos na mão podemos ver agora o falsificador que este Conquest na realidade é. Não há um único número que corresponda à realidade. No ano de 1939 havia em todos os campos, colónias e prisões cerca de 2 milhões de presos. Desses eram 454 mil condenados por crimes politicos e não 9 milhões como Conquest afirma. Os mortos nos campos de trabalho de 1937 a 1939 foram cerca de 160 mil e não 3 milhões como diz Conquest. No ano de 1950 havia nos campos de trabalho 578 mil presos por crimes politicos e não 12 milhões. Não esqueça o leitor que este Robert Conquest ainda hoje é uma das fontes mais importantes da propaganda da direita contra o comunismo. Para os pseudointelectuais da direita Conquest é como um deus. No que diz respeito aos números de Alexander Solzhenitsyn, os 60 milhões de mortos nos campos de trabalho, não há necessidade de comentários, o ridiculo da afirmação é evidente. Só uma mente enferma pode afirmar tais fantasias.

Deixemos agora os falsificadores e façamos uma análise concreta das estatisticas do Gulag. A primeira questão que se põe é o que pensar do número de pessoas no sistema correccional. Que significado tem o número mais alto de 2,5 milhões? Cada pessoa posta em prisão é um testemunho de que a sociedade ainda não se desenvolveu para poder dar a cada cidadão o necessário para uma vida positiva. Vendo as coisas desta maneira são os 2,5 milhões uma nota negativa para a sociedade.

A ameaça interna e externa.

Mas ao número de pessoas abrangidas pelo sistema correccional tem que ser dada uma explicação mais concreta. A União Soviética era um país que recentemente tinha deixado o feudalismo e a herança social no que diz respeito ao valor humano era muitas vezes um peso para a sociedade. No sistema antigo com os Csares, os trabalhadores eram obrigados a viver numa miséria profunda e a vida humana não tinha muito valor. Roubos e crimes violentos eram punidos com uma violencia sem limites. Revoltas contra a monarquia acabavam usualmente com massacres, condenações à morte e penas de prisão muito grandes. Estas relações sociais e a maneira de pensar com elas relacionada leva muito tempo a mudar, tendo isto influenciado o desenvolvimento da sociedade na União Soviética e também a criminalidade no país.

Outro factor a ter em conta é que a União Soviética, um país que nos anos trinta tinha cerca de 160-170 milhões de habitantes, estava fortemente ameaçada por potencias estrangeiras. Na base das grandes mudanças politicas na Europa na década de 1930, vinha a principal ameaça de guerra da Alemanha nazi, ameaça contra a sobrevivencia dos povos eslavos, constituindo também as democracias ocidentais um bloco com intenções intervencionistas. Esta situação muito séria foi resumida por Stáline em 1931 com as seguintes palavras “Estamos atrasados entre 50 a 100 anos em relação aos países avançados. Temos que percorrer esta distancia em 10 anos. Ou o fazemos ou seremos arrasados”. Dez anos depois, em 22 de Junho de 1941, a União Soviética era invadida pela Alemanha nazi e os seus aliados. A sociedade soviética foi obrigada a grandes esforços durante o decénio de 1930-40 sendo a maior parte dos recursos utilizados nos preparativos de defesa para a guerra contra os nazis. Isto fez com que as pessoas tivessem uma vida de trabalho sem grandes compensações a nível pessoal. A reforma de 7 horas de trabalho diário teve que ser retirada em 1937 e em 1939 eram quase todos os domingos dia de trabalho. Num periodo dificil como este em que uma grande guerra determinou o desenvolvimento social durante duas décadas, 1930 e 1940, uma guerra que custou à União Soviética 25 milhões de vidas perdidas e metade do país em cinzas, aumentou a criminalidade quando as pessoas tentavam obter aquilo que a vida não lhe podia dar.

Durante este tempo muito dificil na União Soviética havia como máximo 2,5 milhões de pessoas no sistema correcional ou seja 2,4 % da população adulta. Como se poderá avaliar este número? É muito ou pouco? Façamos uma comparação.

Mais presos nos EUA.

Por exemplo nos Estados Unidos da América, um país com 252 milhões de habitantes em 1996, o país mais rico do planeta que consome sózinho 60% dos recursos mundiais, quantas pessoas há no sistema correcional? Qual é a situação neste país que não é ameaçado por nenhuma guerra e onde não existem mudanças sociais que possam ameaçar a estabilidade económica? Numa notícia (bem pequena) nos jornais em Agosto de 1997, do serviço de noticias FLT-AP dizia-se que nos EUA “Nunca anteriormente tinham existido tantas pessoas no sistema correcional como 5,5 milhões em 1996”. Isto representa um aumento de 200 mil pessoas desde 1995 o que faz com que o número de criminosos nos EUA “seja 2,8% da população adulta”. Estes dados vêm todos do departamento de justiça norteamericano. O número de pessoas condenadas como criminosas nos EUA é hoje superior em 3 milhões ao que foi o máximo na União Soviética! Na União Soviética houve no máximo 2,4% da população adulta condenada por crime – nos EUA estão condenados 2,8% e a quantidade continua a crescer! Segundo um comunicado à imprensa do departamento de justiça dos EUA de 18 de Janeiro de 1998, aumentou o número de presos nos EUA em 1997 com 96.100 pessoas.

E no que diz respeito aos campos de trabalho soviéticos é verdade que era um regime duro e dificil para os presos, mas veja-se bem como é hoje a situação nas prisões nos EUA onde por todo o lado existe violencia, drogas, protituição e escravatura sexual (290.000 violentados por ano nas prisões dos EUA). Ningém se sente em segurança nas prisões nos EUA! Isto num tempo moderno na sociedade mais rica de sempre!

Um factor importante – falta de medicamentos.

Respondamos agora à pergunta número 3. Quantos foram os mortos nos campos de trabalhos? Os casos de morte nos campos de trabalho variaram nuito de ano para ano, de 5,2% em 1934 a 0,3% em 1953. Os casos de morte nos campos de trabalho eram causados pela falta de recursos na sociedade, em primeiro lugar falta de medicamentos para combater epidemias. Este problema não era especifico dos campos de trabalho, existindo igualmente na sociedade em geral como também na grande maioria dos países do mundo. Depois dos antibióticos terem sido descobertos e começado a ser utilizados depois da segunda guerra mundial, a situação modificou-se radicalmente. Na realidade os anos mais dificeis foram os anos de guerra quando o barbarismo nazi obrigou todos os cidadãos da União Soviética a viver uma vida muito dura. Durante estes quatro anos morreram nos campos de trabalho mais de meio milhão de presos o que é mais de metade de todos os mortos durante 20 anos. Não esqueçamos que no mesmo periodo, nos anos da guerra, morreram 25 milhões de pessoas na sociedade livre. Quando as condições na União Soviética melhoraram no decénio de 1950 e com o uso de antibióticos o número de mortos entre os presos diminuiu para 0,3%.

Vejamos agora a pergunta número 4. Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38? Já vimos os números de Robert Conquest de 12 milhões de presos politicos que os bolcheviques teriam matado nos campos de trabalho de 1930 a 1953, dos quais 1 milhão em 1937-38. Os números de Solzhenitsyn são de dezenas de milhões de mortos nos campos de trabalho, dos quais 3 milhões foram mortos em 37-38. Mas ainda tem havido números mais elevados citados na propaganda suja contra a União Soviética. A russa Olga Shatunovskaia, por exemplo, dá-nos um número de 7 milhões de mortos nas depurações de 1937-38!

Mas os documentos dos arquivos soviéticos agora publicados dão-nos uma informação diferente. É preciso dizer em primeiro lugar que os números dos condenados à morte se encontram em vários arquivos e que os investigadores para nos darem um resultado aproximativo são obrigados a recolher dados desses arquivos com um certo risco de contagem dupla e portanto de darem um número maior de o que foi na realidade. Segundo Dmitrii Volkogonov, o chefe dos anteriores arquivos soviéticos nomeado por Jeltsin, foram condenados à morte 30 514 pessoas por tribunais militares de 1 de Outubro de 1936 a 30 de Setembro de 1938. Uma outra informação que agora existe vem da KGB. Segundo uma informação à imprensa em Fevreiro de 1990 tinham 786 098 pessoas sido condenadas à morte por crimes contra a revolução durante os 23 anos de 1930 até 1953. Desses condenados tinham, segundo a KGB, 681 692 sido condenados em 1937-38. Não há possibilidade de fazer um controle das informações que a KGB nos dá, mas esta última afirmação é duvidosa. Seria muito estranho tantos condenados em dois anos. Será que a actual KGB pró-capitalista nos dá uma informação correta da KGB pró-socialista? Em todo o caso veio-se a verificar que as estatisticas que estão na base da informação da KGB mostram que o número mencionado de condenados à morte durante esses 23 anos se refere a criminosos de delito comum e contrarevolucionários e não apenas a contrarevolucionários como a KGB pró-capitalista referiu na informação à imprensa em Fevreiro de 1990. Dos arquivos tira-se também a conclusão de que o número de criminosos condenados à morte era aproximadamente igual para os de delito comum e os contrarevolucionários.

A conclusão a que podemos chegar é de que o número de condenados à morte em 1937-38 foi de cerca de 100 mil e não de vários milhões como tem sido apresentado na propaganda ocidental. É preciso também ter em conta que nem todos os condenados à morte na União Soviética eram executados. Uma grande parte passava a pena de prisão nos campos de trabalho. Também é importante fazer uma diferença entre criminosos de delito comum e contrarevolucionários. Muitos dos condenados à morte eram criminosos condenados por crimes violentos como assassínio ou violação. Este tipo de crime era há sessenta anos penalizado com sentença de morte numa grande parte dos países do mundo

Pergunta número 5 – Qual era em geral o tempo de prisão? O tempo de prisão dos condenados é uma das questões em que os rumores da propaganda ocidental têm sido dos piores. A descrição geral é de que estar preso na União Soviética significava anos sem conta na prisão – quem para lá entrava já não saía. Isto é completamente falso! A grande maioria dos presos no tempo de Stáline, na realidade foram condenados no máximo a 5 anos de prisão!

A estatistica de AHR dá-nos factos concretos. Os criminosos de delito comum na Federação russa em 1936 receberam as seguintes penas de prisão – até 5 anos, 82,4% – de 5 a 10 anos 17,6%. ( 10 anos – pena máxima de prisão até 1937). Os criminosos politicos condenados na União Soviética em tribunais civis em 1936 receberam as seguintes penas de prisão – até 5 anos, 44,2% – de 5 a 10 anos 50,7%. No que diz respeito aos condenados nos campos de trabalho Gulag, onde as penas maiores eram cumpridas, a estatistica de Janeiro de 1940 é a seguinte – até 5 anos,56,8% – de 5 a 10 anos, 42,2% – mais de 10 anos, 1,0%. Para o ano de 1939 temos estatísticas dos tribunais da União Soviética. A distribuição das penas de prisão é a seguinte – até 5 anos, 95,9% – de 5 a 10 anos. 4,0% – mais de 10 anos, 0,1%. Como vemos é a suposta infinidade do tempo de prisão na União Soviética, mais um mito espalhado no ocidente para combater o socialismo.

As mentiras sobre a União Soviética.

Uma breve discussão sobre os relatórios dos investigadores.

As investigações dos históriadores russos revelam uma realidade totalmente diferente da que tem tem sido ensinada nas escolas e universidades do mundo capitalista durante os últimos cinquenta anos. Durante esses cinquenta anos de guerra fria têm várias gerações aprendido só mentiras sobre a União Soviética e isto tem deixado marcas profundas em muitas pessoas. Este facto constatado também se verifica nos relatórios dos investigadores franceses e americanos. Nestes relatórios são-nos dados números e tabelas de presos e mortos, discutindo-se esses números num trabalho de grande amplitude. Mas o principal e mais importante, isto é, os crimes praticados pelos presos, nunca é alvo de uma discussão séria! A propaganda política dos capitalistas tem-se referido sempre aos presos na União Soviética como sendo vítimas e os investigadores utilizam este termo sem pôr em questão a sua veracidade. Quando os investigadores passam das colunas de estatística aos comentários sobre os acontecimentos, vêm as conceções burguesas à luz e o resultado é por vezes macabro. Os condenados no sistema correcional soviético são chamados vítimas, mas o facto é que a maioria eram ladrões, assassinos, violadores, etc. Criminosos deste calibre nunca seriam tratados como “vitimas” na imprensa se os crimes fossem cometidos na Europa ou nos EUA. Mas como os crimes foram cometidos na União Soviética tudo é possivel. Chamar “vítima” a um assassino ou violador que repete o crime é coisa muito suja. Uma tomada de posição pela justiça soviética no que diz respeito aos criminosos de delito comum condenados por crimes violentos deveria de ser consequente, senão no tipo de pena pelo menos na questão da condenação do crime.

Os koulaks e a contrarevolução

No que diz respeito aos contrarevolucionários é também importante discutir os crimes de que foram acusados. Discutamos dois exemplos para mostrar o fundo da questão, em primeiro lugar os koulaks condenados no começo da década de 1930 e depois os conjurados e contrarevolucionários condenados em 1936-38. Segundo os relatórios publicados sobre os koulaks, os camponeses ricos, foram 381 mil familias ou seja cerca de 1,8 milhões de pessoas condenadas a exílio. Uma pequena parte dessas pessoas foi condenada a penas nos campos de trabalho ou em colónias de trabalho. Mas qual foi a causa da condenação desses koulaks?

O camponês rico russo, o koulak, sujeitou os camponeses pobres durante centenas de anos a uma opressão sem limites e a uma exploração sem considerações. Dos 120 milhões de camponeses em 1927, viviam 10 milhões de koulaks na abundancia e os restantes 110 milhões ainda na pobreza – antes da revolução na mais completa das misérias. A riqueza dos koulaks vinha do trabalho mal pago aos camponeses pobres. Quando os camponeses pobres se começaram a juntar em colectivos agricolas desapareceu a principal fonte de riqueza dos koulaks. Mas os koulaks não desistiram, tentando retomar a exploração através da fome. Grupos de koulaks armados atacavam os colectivos agrícolas, matavam camponeses pobres e funcionários do partido, deitavam fogo aos campos e matavam os animais de trabalho. Provocando a fome entre os camponeses pobres os koulaks tentavam garantir a continuação da pobreza e da sua posição de poder. Os acontecimentos que se sucederam não foram o que os assassinos tinham pensado. Desta vez os camponeses pobres foram apoiados pela revolução e mostraram-se mais fortes do que os koulaks, os quais foram derrotados, presos e condenados a exílio ou a penas em campos de trabalho.

Dos 10 milhões de koulaks foram 1,8 milhões condenados. Houve talvez injustiças nesta enorme luta de classes nos campos soviéticos que contava com 120 milhões de pessoas. Mas poderemos acusar os pobres e os oprimidos, na sua luta por uma vida que valha a pena viver, na sua luta para que os filhos não viessem a ser analfabetos com fome, de não serem civilizados ou clementes nos seus juizos? Podem-se acusar os que durante centenas de anos nunca tiveram acesso aos avanços da civilização de não serem civilizados? E digam-nos, quando foi a classe exploradora dos koulaks civilizada ou clemente para com os camponeses pobres durante anos e anos de exploração sem fim?

As depurações de 1937

O nosso segundo exemplo, sobre os contrarevolucionários condenados nos julgamentos de 1936-38 depois das depurações no partido, exército e no aparelho estatal, tem raizes na história do movimento revolucionário na Rússia. Milhões de pessoas participaram na luta vitoriosa contra o Czar e a burguesia russa, vindo muitos deles a entrar para o partido comunista. Entre todas essas pessoas havia infelizmente os que tinham entrado para o partido por outras razões do que para lutar pelo poder proletário e pelo socialismo. Mas a luta de classes era tal que muitas vezes não havia tempo nem possibilidades para pôr à prova os novos militantes. Até mesmo militantes de outros partidos que se diziam socialistas e que tinham combatido o partido bolchevique foram aceites no partido comunista. A uma parte desses novos militantes foram dados postos importantes no partido bolchevique, estado e exército, tudo dependendo da sua capacidade individual para conduzir a luta de classes.

Eram tempos muito dificeis para o jovem estado soviético e a grande falta de quadros, ou simplesmente de pessoas que soubessem ler, obrigava o partido a não fazer grandes exigências no que diz respeito à qualidade dos novos militantes e quadros. De todos estes problemas formou-se com o tempo uma contradição que dividiu o partido em dois campos – de um lado os que queriam ir para a frente na luta pela sociedade socialista, por outro lado os que consideravam que ainda não havia condições para realisar o socialismo e que propunha uma politica socialdemocrática. A origem desta últimas ideias vinha de Trotski que tinha entrado para o partido comunista em Julho de 1917. Trotski foi com o tempo obtendo apoio de alguns dos bolcheviques mais conhecidos. Esta oposição unida contra os ideais bolchiques originais era uma das opções na votação partidária sobre a politica a seguir pelo partido, realisada em 27 de Dezembro de 1927. Antes desta votação tinha havido uma grande discussão partidária durantes vários anos e não houve duvida quanto ao resultado. Dos 725 000 votos a oposição só obteve 6 000 – ou seja, menos de 1% dos militantes do partido apoiaram a oposição unida.

Em consequencia da votação e uma vez que a oposição trabalhava por uma política diferente da do partido, o comité central do partido comunista decidiu expulsar do partido os principais dirigentes da oposição unida. A pessoa central da oposição, Trotski, foi expulso da União Soviética. Mas a história da oposição não acabou aqui. Sinovjev, Kamenjev e Evdokimov fizeram pouco depois autocrítica, assim como vários dos principais trotskistas como Pjatakov, Radek, Preobrajenski e Smirnof. Todos esses foram novamente aceites como militantes do partido e retomaram os seus trabalhos no partido e no estado. Com o tempo verificou-se que as autocríticas da oposicão não eram uma expressão verdadeira, estando os principais oposicionistas unidos do lado da contrarevolução cada vez que a luta de classes endurecia na União Soviética. A maioria desses oposicionistas foi expulso e readmitido mais umas duas vezes antes de se ter formado a situação definitiva  em 1937-38.

Sabotagem industrial.

O assassinio de Kirov em Dezembro de 1934, o presidente do partido em Leninegrado e uma das pessoas mais importantes do comité central, veio a dar origem à descoberta de uma organização secreta que preparava uma conspiração para tomar posse da direção do partido e do governo do país através de um acto violento. A luta politica que tinham perdido em 1927 queriam agora ganhá-la através de violência organizada contra o estado. A organização tinha uma rede de apoios no partido, exército e aparelho estatal em todo o país, sendo as actividades mais importantes sabotagem industrial, terrorismo e corrupção. Trotski, o principal inspirador da oposição dirigia as actividades do estrangeiro. A sabotagem industrial causava uma perda terrivel para o estado soviético, com um custo económico enorme como por exemplo máquinas importadas que se estragavam sem possivel reparação, e uma enorme baixa na productividade nas minas e fábricas.

Uma das pessoas que em 1939 descreveu o problema foi o engenheiro americano John Littlepage, um dos especialistas estrangeiros contractados para trabalhar na União Soviética.Littlepage trabalhou 10 anos na industria mineira soviética, entre 1927 e 1937, principalmente nas minas de ouro. No seu livro “In search of Soviet gold” escreve, “Eu nunca tive interesse pela subtilidade das manobras políticas na Rússia enquanto as podia evitar; mas tive que estudar o que acontecia na indústria Soviética para poder fazer um bom trabalho. E estou firmamente convencido de que Stáline e os seus colaboradores levaram muito tempo até descobrir que os comunistas revolucionários descontentes eram os seus inimigos mais perigosos”. Littlepage escreveu também que a sua própria experiência confirmava as declarações oficiais de que uma conspiração conduzida do exterior se utilizava de uma grande sabotagem industrial como uma parte de um processo para fazer cair o governo. Já em 1931 Littlepage tinha sido obrigado a constatar isso durante um trabalho nas minas de cobre e chumbo no Ural e no Kasaquistão. As minas eram uma parte do grande complexo de cobre-chumbo cujo chefe máximo era Piatakov, o vice comissário do povo para a indústria pesada. O estado das minas era catastrofal no que diz respeito à produção e ao bem estar dos trabalhadores. A conclusão de Littlepage foi de que havia uma sabotagem organizada proveniente da direção superior do complexo de cobre-chumbo.

O livro de John Littlepage dá-nos também a conhecer de onde a oposição trotskista recebia o dinheiro necessário para pagar a actividade contrarevolucionária. Vários membros da oposição secreta utilizavam os seus postos na União Soviética para aprovar a compra de máquinas de certas fábricas no estrangeiro. Os produtos aprovados eram de uma qualidade muito baixa mas eram pagos pelo governo soviético ao preço mais alto. As fábricas estrangeiras davam à organização de Trotski no estrangeiro o ganho económico de tais transações, em troca do qual Trotski e os seus conjurados na União Soviética continuavam a fazer mais compras dessa fábricas.

Roubo e corrupção.

Este procedimento foi constatado por Littlepage em Berlin na primavera de 1931 quando da compra de elevadores industriais para as minas. A delegação soviética era chefiada por Pjatakov, sendo Littlepage o especialista encarregado de verificar a qualidade dos elevadores e aprovar a compra. Littlepage descobriu a fraude com os elevadores de má qualidade, inúteis para a União Soviética, mas quando comunicou o facto a Pjatakov e aos outros membros da delegação soviética foi recebido de uma maneira fria como se quisessem fugir aos factos e continuando a exigir que ele aprovasse a compra dos elevadores. Littlepage não aprovou. Na altura pensou que o que se passava era uma questão de corrupção pessoal e que os membros da delegação recebiam subornos da fábrica de elevadores. Mas depois de Pjatakov, no julgamento de 1937, ter confessado a sua ligação à oposição trotsquista, Littlepage foi obrigado a constatar que o que ele tinha observado em Berlim era muito mais do que corrupção a nível pessoal. O dinheiro em causa era destinado ao pagamento das actividades da oposição secreta na União Soviética, actividades essa que compreendiam sabotagem, terrorismo, subornos e propaganda.

Zinoviev, Kaménev, Piatakov, Radek, Smirnof, Tomski, Boukharine e outros tão queridos à imprensa ocidental burguesa, utilizavam-se dos postos que o povo soviético e o partido lhes tinha dado, para roubar dinheiro ao estado, para que esse dinheiro fosse utilizado pelos inimigos do socialismo no estrangeiro na sabotagem e no combate à sociedade socialista na União Soviética.

Planos para golpe de estado.

O tipo do crime no que diz respeito a roubo, sabotagem e corrupção é um crime sério, mas as actividade da oposição iriam muito mais longe. A conspiração contrarevolucionária preparava-se para  tomar o poder com um golpe de estado no qual toda chefia soviética seria eliminada,começando pelo assassínio das pessoas mais importantes do comité central do partido comunista. A parte militar do golpe de estado seria realisada por um grupo de generais encabeçado pelo marechal Toukhatchevski. Segundo Issak Deutsher, o trotskista que escreveu muitos livros contra Stáline e a União Soviética, o golpe de estado seria iniciado com uma operação militar contra o Kremlin e contra as tropas mais importantes nas grandes cidades como Moscovo e Leninegrado. A conspiração era, segundo Deutscher, chefiada por Toukhatchevski em conjunto com Gamarnik, chefe dos comissários politicos do exército, o general Iakir, comandante de Leninegrado, o general Ouborévitch, comandante da academia militar de Moscovo e o general Primakov um dos chefes da cavalaria.

O marechal Toukhatchevski era um oficial do antigo exército czarista que depois da revolução se tinha passado para o Exército Vermelho. Em 1930 cerca de 10% dos oficiais, ou seja cerca de 4500, eram antigos oficiais czaristas. Muitos deles nunca tinham deixado as suas posições burguesas e esperavam na calada um oportunidade para lutarem por elas. A oportunidade apareceu quando a oposição se preparava para dar um golpe de estado. Os bolchviques eram fortes mas as conspirações civil e militar também trataram de arranjar amigos fortes. Segundo a confissão de Boukharine no julgamento publico em 1938, existia um acordo feito entre a oposição trotskista e a Alemanha nazi, no qual grandes regiões, entre elas a Ucrânia, seriam dadas à Alemanha nazi depois do golpe de estado contrarevolucionário na União Soviética. Este era o pagamento exigido pela Alemanha nazi pelo apoio prometido aos contrarevolucionários. Boukharin tinha sido informado deste acordo por Radek que sobre a questão tinha recebido uma directiva de Trotski. Todos estes conspiradores que tinham sido eleitos para altas posições, para chefiar, administrar e defender a sociedade socialista, trabalhavam na realidade para destruir o socialismo. Além do mais é preciso não esquecer que tudo isto se passou no decénio de 1930 quando o perigo nazista crescia sem parar e os exércitos nazistas punham a Europa a arder e preparavam uma invasão da União Soviética. Os conspiradores foram condenados à morte como traidores em julgamento público. Os culpados de sabotagem, terrorismo, corrupção, tentativa de assassínio e que queriam dar uma parte do país aos nazistas não podiam esperar outro fim. Chamar-lhes vítimas é um erro total.

Mais números mentirosos.

É intressante saber como a propaganda ocidental, através de Robert Conquest, tem mentido sobre as depurações no Exército Vermelho. Conquest diz no seu livro “O grande terror” que em 1937 havia 70000 oficiais e comissários politicos no Exército Vermelho e que 50% desses, ou seja 15.000 oficiais e 20000 comissários, tinham sido presos pela polícia política e que tinham sido executados ou aprisionados para o resto da vida nos campos de trabalho. Nesta afirmação de Conquest, aliás como em todo o livro, não existe nada de verdade. O historiador Roger Reese no seu trabalho “The Red Army and the Great Purges” dá-nos factos i mostra o verdadeiro significado que as depurações de 1937-38 tiveram para o exército. O número de pessoas em posição de chefia no Exército Vermelho e na aviação, ou seja oficiais e comissários politicos, era de 144 300 em 1937 crescendo para 282 300 até 1939. Durante as depurações de 1937-38 foram despedidos 34300 oficiais e comissários por motivos politicos, mas antes de maio de 1940 já 11596 tinham sido reabilitados e reintegrados nos seus postos. Isto significa que durante as depurações de 1937-38 foram despedidos 22705 oficiais e comissários politicos (cerca de 13000 oficiais do exército, 4700 da aviação e 5000 comissários politicos) o que é 7,7% de todos os oficiais e comissários e não 50% como Conquest diz. Desses 7,7%, foi uma parte condenada como traidores, mas para a grande maioria o material histórico à disposição indica terem passado à vida civil.

Uma última pergunta. Os julgamentos de 1937-38 foram justos para com os acusados? Vejamos por exemplo o julgamento de Boukharine, o funcionário mais alto do partido que trabalhava para a oposição secreta. Segundo o embaixador americano em Moscovo nessa altura, um conhecido advogado de nome Joseph Davies que esteve no tribunal durante todo o julgamento, foi permitido a Boukharine falar livremente durante todo o julgamento e expor o seu caso sem qualquer empedimento. Joseph Davies escreveu para Washington que durante o julgamento se mostrou

que os acusados eram culpados “dos crimes que se comprovaram” e que “A opinião geral entre och diplomatas que assistiram ao processo é de que se provou a existencia de uma conspiração muito grave”.

Aprendamos com a história!

A discussão do sistema correcional soviético durante o tempo de Stáline, sobre o qual se têm escrito milhares de artigos e livros mentirosos e se têm filmado centenas de filmes falsos, dá-nos conhecimentos importantes. Os factos mostram-nos mais uma vez que as histórias sobre o socialismo publicadas na imprensa burguesa são na sua maioria falsas. A direita através da imprensa, radio e televisão que domina, pode confundir e distorcer a realidade e fazer que grande quantidade de pessoas venham a considerar mentiras declaradas como verdades. Isto é especialment verdade no que se refere a questões histórica. Novas histórias da direita devem portanto ser encaradas como falsas até que o contrário seja demonstrado.

Esta atitude cautelosa tem razão de ser. O facto é que mesmo tendo conhecimento dos relatórios russos a direita continua a reproduzir as mentiras que ensina há mais de 50 anos e que já foram totalmente desmascaradas. A direita segue a sua herança histórica: uma mentira repetida muitas vezes, acaba por ser dada como verdade. Depois dos relatórios dos investigadores russos terem sido publicados no ocidente, começaram a ser editados em vários países um número de livros, com a única finalidade de dar ao esquecimento os relatórios russos e fazer com que as velhas mentiras venham a público como verdades novas. São livros com boa apresentação, de capa a capa  só com mentiras sobre o comunismo e o socialismo.

As mentiras da direita são repetidas para combater os comunistas de hoje! São feitas para que os trabalhadores não encontrem uma alternativa ao capitalismo e ao neoliberalismo. São uma parte da guerra suja contra os comunistas que têm uma alternativa para o futuro, a sociedade socialista. Essa é a causa dos livros novos com mentiras velhas.

Tudo isto impõe obrigações a todos os que têm uma visão socialista da história. Cabe a nós tomar a responsabilidade de trabalhar para fazer dos jornais comunistas, autenticos jornais das classes trabalhadoras para dar combate às mentiras da burguesia! Esta é sem dúvida uma missão importante na luta de classes de hoje que num futuro próximo se desenvolverá com novas forças.

Mário Sousa

15/6/1998

mario.sousa@ telia.com

Fonte: http://www.mariosousa.se/MentirassobreahistoriadaUniaoSovietica.html

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Exemplo de manipulação

Uma página com mais de 600 mil fãs, e com um discurso geralmente de esquerda, publicou um link (http://migre.me/h3BPL) aproveitando para fazer o seguinte comentário: “Vídeo mostra como um estuprador é tratado pelos profissionais de direitos humanos, os defensores dão água, balinha e até dicas para o réu confesso de como proceder durante o depoimento! Absurdo!”. O link teve mais de 100 “curtidas” e de 180 compartilhamentos.

De fato, havia um video onde ativistas defensores dos direitos humanos davam instruções a um preso. Os comentários, obviamente, estavam recheados daquelas frases de efeito que já nos cansamos de ouvir. Mas qual era o contexto, que nem o administrador da página, nem os fãs, se preocuparam em saber?

Uma garota foi assassinada no Paraná, e a polícia prendeu quatro suspeitos, empregados num parque próximo ao local onde foi encontrado o cadáver. Eles confessaram o homicídio e estupro e foram exibidos como monstros da semana nos freakshows policialescos da televisão e imprensa.

Depois, veio a reviravolta: a perícia técnica anunciou que não havia qualquer prova contra os quatro suspeitos, mas que os acusados haviam sido torturados! Esclareceu-se o ocorrido: um grupo de policiais, pressionados por superiores para “mostrar resultados” no caso de grande repercussão, torturou suspeitos para força-los a assumir o crime que os policiais não conseguiam resolver (http://migre.me/h3BUq). O tipo de tortura que sofreram é familiar para quem sofreu ou estudou a repressão sob a ditadura militar.

Há pouco tempo, soubemos que um morador de rua, preso arbitrariamente durante uma manifestação, ficou por 5 meses preso “provisoriamente” e então condenado a 5 anos de prisão por estar com água sanitária e desinfetante no momento da prisão – a polícia relatou, o promotor denunciou e o juiz condenou. Eles consideraram que os produtos de limpeza em recipiente de plástico eram “coquetéis molotov”.

Noutro caso noticiado nessa semana (http://migre.me/h3CzW), um rapaz foi preso, acusado de estupro, e ficou meses na preso em regime provisório, durante os quais foi estuprado por outros presidiários e contraiu AIDS. E então foi julgado e absolvido, por falta de provas, e libertado. O que ele sofreu na prisão, mesmo sem ter sido condenado, é irreversível.

Em contraste, noutro caso (http://migre.me/h3CJl), 3 adolescentes de famílias ricas, um deles herdeiro do Grupo RBS, foram acusados pelo estupro de uma garota de 12 anos. Nesse caso havia provas de sobra, e a condenação pelo bárbaro estupro e agressão da garota foi uma pena de “liberdade assistida” e “serviços comunitários” de 6 meses.

Da mesma forma que os 450 kg de pasta-base de cocaína flagrados no helicóptero da riquíssima família Perrella não foi considerada como prova de que eles são traficantes, ao contrário das pequenas quantidades encontradas com a maioria dos pobres e negros acusados de tráfico de drogas. A culpa caiu toda sobre o piloto, empregado dos Perrella, que dirigia um helicópetro dos Perrella, e fez uma ligação para os patrões antes de levantar voo, levando a droga para uma fazenda dos Perrella, que, por sinal, são investigados por lavagem de dinheiro (http://migre.me/h3Don).

Já tratamos um pouco sobre isso no nosso blog (http://migre.me/h3CWT). Só gostaria de recordar a todos os que gritam essas frases de efeito datenísticas que todos vocês são cúmplices indiretos dessas arbitrariedades que são repetidamente denunciadas, com baixíssima repercussão.

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