A universidade brasileira não é dominada pelo marxismo

Um dos mitos prediletos dos reacionários é dizer que todo mundo é “comunista” nas universidades, e que os reaças, coitadinhos, seriam os grandes heróis da resistência contra a dominação comuno-marxista-etc. Nada mais longe da verdade.

As universidades são instituições que agrupam vários cursos de áreas diferentes, com professores, técnicos e alunos selecionados por provas igualitárias (concurso público e vestibular). É comum classificarmos os cursos como uma “nobreza” e uma “plebe”: a nobreza está nas profissões liberais tradicionais, particularmente Medicina, Engenharia, Direito, etc, e os restantes são os cursos plebeus. Via de regra, os alunos dos cursos “nobres” vêm das escolas privadas mais caras, são cursos extremamente elitizados.

É contra os cursos plebeus que as acusações de “heresia comunista” mais se dirigem. Os alunos de Engenharia, Medicina, Direito, Arquitetura, entre outros, são considerados honestos cidadãos de bem, todos lá por serem estudiosos e inteligentes. Os alunos plebeus são acusados de serem militantes comunistas que fumam maconha o dia inteiro.

Os professores dos cursos plebeus são acusados de malvados hipnotizadores que transformam todos os alunos (com exceção dos “jenios” reacionários, é claro) em guerrilheiros revolucionários e viciados em cannabis sativa. Depois a maioria desses guerrilheiros revolucionários iria para as escolas públicas com a missão de “doutrinar” as crianças e adolescentes, para transformá-los em um exército revolucionário e consumidor da erva do diabo.

Exposto dessa maneira, parece ridículo. Porque é ridículo. Qualquer um que já tenha sido aluno de escolas e universidades públicas, que tenha lecionado e pesquisado alguma vez na vida, e tenha o mínimo de honestidade e bom senso, vai constatar o ridículo e patético dessas teorias da conspiração. Nem conseguem ser divertidas, como as teorias conspiratórias envolvendo alienígenas e clubes medievais.

A realidade da educação pública é muito diferente. Os professores demonizados como hipnotizadores malvados trabalham por baixos salários e sob péssimas condições de trabalho, obrigados a lecionar para várias turmas superlotadas. Os professores universitários tem condições de salário e trabalho em geral melhores, mas se exige deles um doutorado, mestrado e graduação, e muitos tem especializações e pós-doutorados concluídos. Ou seja: sua remuneração não é proporcional à altíssima escolaridade e grandes responsabilidades.

Os professores universitários das chamadas “ciências humanas” são todos de esquerda? Não. São majoritariamente de esquerda? Talvez. O que importa é que ninguém é obrigado a ser um revolucionário em um curso de “ciências humanas”, muito menos estudando história, geografia, filosofia e sociologia no ensino médio (e biologia também não te força a ser ateu, ok?). Não existem hipnotizadores de massas que vão converter todo mundo ao movimento revolucionário.

Um aluno que se recuse a escrever uma redação interpretando um texto de Karl Marx deve ser reprovado. É como se um aluno de Biologia se recusasse a fazer trabalhos sobre a teoria da evolução de Charles Darwin. Qual é o medo de pessoas que fazem isso? É o de mudarem suas convicções diante dos argumentos do autor que elas repudiam sem nunca terem lido?

Thomas Kuhn constatou que as ciências sociais são “multiparadigmáticas”, ou seja, as pesquisas científico-sociais são orientadas por uma certa pluralidade de perspectivas teóricas. Não entrarei aqui nos detalhes do conceito de paradigma, só menciono para chamar a atenção que é exatamente isso o que observamos em instituições de ensino: existem professores e alunos filiados a diferentes paradigmas científicos.

Tampouco é a universidade um lugar extremamente propício para a ação da esquerda radical. O financiamento de pesquisas depende de uma burocracia com regras rígidas e critérios positivistas de “produtividade”. As publicações seguem regras igualmente rígidas de redação acadêmica e tem uma circulação restrita aos próprios estudiosos do assunto. Quem se sente à vontade na burocratizada carreira acadêmica são os positivistas, e não os marxistas.

Existem parcerias entre instituições universitárias e empresas privadas ou governos, que acabam impondo a pauta de pesquisa. Ainda que as convicções políticas dos alunos e professores sejam revolucionárias, o que nem sempre é o caso, a prática acadêmica não é. E não é o número de citações de autores “marxistas” que pode mudar esse fato, nem pesquisas sobre a desigualdade social.

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7 respostas a A universidade brasileira não é dominada pelo marxismo

  1. Eu estudo estudo em universidade pública e concordo com tudo o que o autor desse texto diz.
    Só uma complementação minha: Apesar dos cursos mais concorridos serem inegavelmente mais elitizados, existem casos variáveis, em diferentes universidades, campus e cursos, em que mesmo aqueles menos concorridos estão recheados de alunos de classe média, acarretando em que os realmente pobres sejam mais incomuns. Naturalmente, o posicionamento desses alunos tende a ser de direita, até onde eu pude observar.

  2. Na faculdade pública com cursos elitizados, boa parte dos alunos é da elite mesmo, por causa do governo que não investe em uma qualidade de educação e ensino de primeiro mundo, se fosse mais investido em um ensino melhor, seria possível ver mais plebeus em cursos elitizados!

  3. Matheus L. Brinhosa diz:

    Parabéns pelo texto. Só uma anta pode acreditar que existe uma maioria revolucionária sob o sistema capitalista: se assim fosse, a revolução já teria ocorrido. Não ocorreu revolução justamente porque não existe uma maioria revolucionária. É até uma questão óbvia: a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, e por isso o capitalismo permanece.

  4. Marcus diz:

    Faço curso de humanas numa estadual e não poderia concordar mais com o texto, incrível como a direita tem essa paranoia de que o marxismo está presente em tudo, e ainda adoram se fazer de oprimidos pela doutrinação marxista.

  5. Gerri Sherlock diz:

    O texto está corretíssimo!
    Sou formado em um curso da área de humanas (História) por uma universidade federal. E trabalho nela há quase 10 anos. A coisa mais difícil de achar nos cursos de humanas é um marxista (professor ou estudante). Nas outras áreas, então, nem se fala…
    Contudo, quero propor uma reflexão ao autor. Ele disse: “Os professores universitários tem condições de salário e trabalho em geral melhores, mas se exige deles um doutorado, mestrado e graduação, e muitos tem especializações e pós-doutorados concluídos. Ou seja: sua remuneração não é proporcional à altíssima escolaridade e grandes responsabilidades.”
    Acho que, no plano ideal, os professores universitários deveriam ganhar mais. Porém, no plano real, tendo em vista as poucas “responsabilidades” que assumem (menos de 50% dos docentes produzem pesquisa, menos de 20% desempenham atividades de extensão e mais de 60% deles não leciona mais de 10h semanais – ou seja, trabalham pouco nas 3 dimensões do tripé universitário), ganham até muito bem.
    E, se compararmos sua remuneração à de outras categorias profissionais, veremos que a hora de trabalho dos profs das federais está bem cotada. Docentes universitários da iniciativa privada ganham mais, porém lecionam muito mais que 10h por semana. Além disso, não gozam das prerrogativas dos colegas das instituições públicas (ex: sair 5 anos para fazer doutorado recebendo salário). Delegados de polícia, juízes e promotores (todas são carreiras públicas) também têm alta escolaridade – aferida por critérios mais impessoais (gabarito da prova corrigido por leitora ótica) do que as viciadas bancas universitárias. Médicos, dentistas e executivos da iniciativa privada recebem altas remunerações, mas, além da alta escolaridade (dificilmente os melhores empregos nessa profissões são acessíveis mediante mero diploma de graduação), desempenham uma jornada de trabalho superior à dos professores universitários e estão sujeitos a cobranças e pressões (“responsabilidades”) infinitamente maiores que os docentes.
    Pense nisso! Os profs. das federais vivem dizendo o contrário – que ganham mal, que possuem alta escolaridade etc -, mas, para o que fazem de fato, gozam de um padrão muito confortável, totalmente distinto daquele do povo que paga seus salários.

  6. gomes diz:

    Os reacionários ainda não conseguiram me explicar: como um sistema tão falido quanto o comunismo consegue financiar uma revolução cultural no mundo inteiro?

  7. Duke diz:

    Muito bom o texto. Esse papo de doutrinação marxista é pura fantasia.
    Deixo aqui um link para contribuir um pouco mais com o debate:
    http://independentefatecsp.wordpress.com/2014/01/08/o-mito-da-doutrinacao-marxista-nas-escolas/

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