O governo brasileiro não é “chavista”

Os reacionários piraram de vez. Estão dizendo pela internet que o governo federal brasileiro é “bolivariano” ou “chavista”. Marina Silva deu uma entrevista dizendo que seu objetivo é lutar contra o “chavismo do PT”. Dizem que o governo brasileiro é “estatista”, e que nossa economia está se tornando um sistema planificado ao estilo da União Soviética. Alguns vão mais longe: dizem que o Brasil é “socialista” e vive sob uma “ditadura do politicamente correto”. Falam até de “ditadura gay” e “totalitarismo de esquerda”.

Psicose coletiva made in USA

Esse vocabulário soa familiar para quem conhece o Tea Party, a corrente de extremíssima-direita do Partido Republicano dos Estados Unidos. O TP é uma facção baseada no fundamentalismo cristão e de mercado: economicamente ultra-liberal, também prega a teocracia cristã.

Você, cidadão razoável, pensará: eles deviam estar felizes, porque o liberalismo econômico é soberano nos EUA, ao menos no que diz respeito à privatização dos lucros, já que o governo de lá, como o nosso, socializa os riscos dos oligopólios privados, através de subsídios diretos ou indiretos e resgates. Ledo engano! O TP não dá  mínima para a estatização dos riscos, prejuízos e custos, mas é  histérico em relação à qualquer socialização dos benefícios, mesmo aquelas reles políticas compensatórias e assistenciais.

Em relação ao seu projeto de ditadura teocrática, devem estar um pouco tristes, já que os direitos civis de mulheres e homossexuais avançaram, mas nem tanto, pois há plena tolerância com a intolerância. Os grupos white power e christian nation, e todo tipo de mistura entre os dois, existem e contam com a conivência das autoridades políticas. Pode parecer pura crença na liberdade de expressão e associação, mas não é bem assim, pois o movimento Occupy sofreu dura perseguição e tem muitos ativistas condenados na prisão.

Ainda assim, o Tea Party não se cansa de denunciar, com habitual histeria, que há alguma conspiração islâmica, comunista, gay e abortista querendo dominar os EUA, e com razoável grau de sucesso. Soa familiar? Sim, lembra muito o Olavo de Carvalho. Na verdade, deve ser a sua fonte de inspiração. Dele e dos Reinaldo de Azevedo, Luís Felipe Pondé e assemelhados.

Financiamento das campanhas eleitorais

A democracia eleitoral tem um custo. Quem o paga? No Brasil, o modelo de financiamento eleitoral é misto: de um lado, temos o Fundo Partidário, de outro, as “doações” privadas, que podem ser tanto de indivíduos (pessoas físicas) quanto de empresas, igrejas, etc (pessoas jurídicas).

O financiamento público já possui regras pré-estabelecidas para a distribuição dos recursos. O financiamento privado depende da vontade dos financiadores. É um tanto óbvio pensar que os financiadores privados os políticos com propostas que lhes são favoráveis.

Os dados oficiais revelam em torno de 95% do financiamento privado de campanhas eleitorais por bancos e empreiteiras, e o PT não é exceção a esta regra. Há muita corrupção envolvida nas trocas de favores entre políticos profissionais e empresários que os financiam. Todos os grandes partidos são financiados por grandes empresas e envolvidos em casos de corrupção.

Não é nosso interesse aqui nos aprofundar na questão da corrupção. É apenas constatar que os principais empresários capitalistas do país não tem o menor interesse em financiar políticos e partidos desfavoráveis aos seus interesses de classe.

Presidencialismo de coalizão

O sistema de governo brasileiro é descrito como “presidencialismo de coalizão”. O Presidente, para governar, necessita de um mínimo apoio de deputados federais e senadores, que também são intermediários entre o Presidente e os Governadores e Prefeitos. Como o Congresso precisa do Presidente para sancionar leis aprovadas e executar o orçamento, e o Presidente precisa do Congresso para aprovação de orçamentos e leis, é estabelecida uma negociação de mútuas concessões.

Algumas concessões são favores privados (cargos, verbas, subornos, etc), outras são programáticas, ou seja, influenciarão a política do governo para a educação, saúde, indústria, comércio, agricultura, finanças, tributação, segurança pública, defesa nacional, etc. Sendo assim, não temos simplesmente o governo do partido ao qual é filiado o Presidente, mas também dos que o apoiam. Sem esquecer que, ainda mais importantes que os partidos eleitorais, há bancadas de interesses econômicos e religiosos que são mais importantes.

Filhotes da ditadura, ruralistas e fundamentalistas

E quem encontramos entre deputados federais e senadores governistas? Muitas figuras ligadas àquela ditadura que durante 21 anos cometeu graves e sistemáticos crimes contra a humanidade em nome da “segurança nacional” contra o “inimigo interno” identificado ao “Comunismo Ateu Internacional”. O exemplo máximo é o senador maranhense José Sarney: entre 1964 e 1984, foi membro do partido governista da ditadura (ARENA, depois PDS), pelo qual foi governador do Maranhão e senador, chegando mesmo a ser presidente do partido pró-ditadura.

Além de Sarney, não é difícil apontar Fernando Collor de Melo, outro político anteriormente ligado à ditadura, e Paulo Salim Maluf, político paulista que foi nomeado prefeito do município de São Paulo e depois governador do Estado de São Paulo pelos ditadores militares.

Além destes Filhotes da Ditadura, temos também membros da Bancada Evangélica, grupo de políticos adeptos do fundamentalismo religioso, particularmente das seitas neopentecostais, e da Bancada Ruralista, grupo de políticos defensores do latifúndio e do agronegócio, sempre em campanha para criminalizar os movimentos contrários aos interesses latifundiários (camponeses, índios, quilombolas, ecologistas, direitos humanos, etc), restringir direitos de indígenas e quilombolas, liberalizar o uso de agrotóxicos e transgênicos, proteger fazendeiros acusados de explorar trabalho escravo e mandar matar lideranças populares e, enfim, criar todo tipo de obstáculo à reforma agrária.

Para completar, não é difícil apontar figuras que estiveram entre os principais aliados do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, como os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá.

Pé no chão

Com base nestes fatos, fica difícil afirmar que o governo brasileiro é “chavista” ou “bolivariano por ser encabeçado pelo PT, ainda que ele o quisesse (o que é muito duvidoso), apenas por ter ex-sindicalistas e ex-guerrilheiros entre suas lideranças.

Como alguém poderia fazer um governo de esquerda ao lado de Sarney, Maluf, Jucá, Kátia Abreu, Marco Feliciano, Marcelo Crivella, Jair Bolsonaro, Blairo Maggie, Romeo Tuma, Fernando Collor de Melo, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Henrique Alves e outros? Como fazer um governo de esquerda tendo as campanhas eleitorais financiadas por bancos, construtoras e mineradoras?

Este sistema de financiamentos e alianças é muito mais decisivo para as escolhas governamentais que o nome e bandeira do partido que encabeça a coalizão governante. Quem tiver qualquer dúvida sobre isso pode estudar um pouco as políticas federais em diferentes setores, nos últimos 10 anos. Vai constatar como a influência das alianças e financiadores está bem marcada em cada setor das políticas estatais.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em História com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s