Calúnias contra Salvador Allende

Há pouco tempo uma revista semanal, famosa por seu discurso de extrema-direita, publicou um texto, escrito por um economista que se tornou conhecido por defender a privatização dos tubarões  em seu blog, que era divulgado através de SPAM na rede social Orkut. Esse texto reproduz as calúnias de Victor Faría contra Salvador Allende, presidente eleito do Chile entre 1970 e 1973, deposto e assassinato por um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos e liderado pelo general Augusto Pinochet, que se tornou presidente com poderes ditatoriais até 1989, considerado um dos grandes tiranos do século XX.

escrevemos sobre a ditadura neoliberal-militar do Chile em outra ocasião. Agora escreveremos sobre a calúnia de Victor Faría contra Salvador Allende, publicada num livro-panfleto chamado Salvador Allende: anti-semitismo y eutanasia, escrito com o óbvio objetivo de sujar a imagem do ex-presidente. Como se sabe, Allende era marxista, líder da Unidade Popular, aliança que reuniu vários partidos de esquerda com o objetivo de superar o capitalismo e construir o socialismo no Chile. Os eleitores de Allende e de seus aliados sabiam deste propósito e os apoiaram nas urnas e nas ruas exatamente por isso.

Em seu livro-panfleto, Victor Farías acusa o falecido presidente chileno de ter sido um adepto de teorias racistas e eugênicas, tendo supostamente como base uma monografia acadêmica (Higiene mental y delincuencia) escrita por Salvador Allende em 1933, encontrada num arquivo da faculdade de medicina onde foi defendida a tese.  A favor da acusação, Victor Farías cita alguns trechos da monografia que ligavam criminalidade e raça. Entre as raças criminosas, estavam os judeus, fato estranho, pois que Allende tinha ascendência judaica.

O livro-panfleto provocou muito estardalhaço e foi intensivamente divulgado por oligopólios midiáticos que foram ligados às ditaduras capitalistas na América Latina. Alguns críticos argumentaram que o racismo era tido como “científico” por muitos adeptos do positivismo, filosofia com ampla presença direta ou indireta na vida universitária. O jovem médico Allende não teria escapado dessa influência, que, afinal de contas, não influiu na sua conduta política posterior.

Outros críticos decidiram verificar as fontes usadas por Victor Farías. Vasculharam arquivos da faculdade de medicina, e lá descobriram o texto original de Higiene mental y delincuencia, e assim descobriram que as acusações de racismo e eugenismo contra Salvador Allende não passavam de uma grosseira falsificação. A mentira provou ter pernas curtas.

Os trechos citados da obra não se tratavam de teorias defendidas por Salvador Allende, mas, pelo contrário, de teorias que são criticadas por ele. A criminologia positivista de Cesare Lombroso, inspirada pelo darwinismo social, é cuidadosamente descrita e exposta no trabalho de Allende, e, logo em seguida, criticada por sua ausência de fundamento científico. O trabalho de Allende vai no sentido oposto, da explicação da criminalidade por fatores sociais, econômicos e culturais, como a desigualdade social.

Longe de mostrar uma adesão ao “racismo científico” em voga na época e doutrina oficial da ditadura nazi-fascista, o texto revela a inspiração humanista que marcaria o futuro político marxista. A monografia de Salvador Allende sobre criminologia foi então publicada para desmentir as calúnias de Victor Farías. O livro pode ser baixado aqui.

Nos textos introdutórios, escritos por juristas, filósofos e cientistas sociais, há um resumo da monografia de Salvador Allende e uma crítica ao trabalho de Victor Farías. Além da distorção da tese acadêmicas, os pesquisadores apontaram uma distorção de documentos relativos à atuação de Salvador Allende como ministro da saúde no final dos anos 1930, e, posteriormente, como presidente, no início dos anos 1970.

O caluniador também acusou Salvador Allende de ter elaborado um projeto de lei para a esterilização forçada de doentes mentais, quando ministro da saúde de um governo de centro-esquerda, em 1939. Na verdade, o ministro Allende vetou um projeto sugerido por uma comissão de médicos chilenos. Ou seja: ele foi responsável por impedir uma loucura que agora lhe é atribuída!

Allende também é acusado de, como Presidente da República do Chile, não atender ao pedido de extradição de Walter Rauff, um criminoso de guerra da ditadura hitlerista. Mas na verdade, a decisão de não extradição foi tomada pelo Supremo Tribunal chileno, que era o órgão com poder para tomar decisão sobre extradições, em 1963. Em outras palavras, o Presidente do Chile, pela Constituição de então, não tinha poder de decisão sobre extradições, que cabia apenas ao Judiciário, e a decisão já havia sido tomada pelo órgão competente 7 anos antes de Allende assumir a Presidência!

Isso basta para demonstrar o charlatanismo do livro de Victor Farías contra Salvador Allende, e a enorme irresponsabilidade de todos os seus divulgadores, que não se deram ao trabalho de verificar o uso que este faz das fontes nas quais diz se basear, mas que na verdade se limita a manipular para compor um libelo anti-Allende.

ps: Após concluído o texto, descobri que o professor e historiador Gustavo Moreira, em seu blog, também fizera um texto sobre o mesmo assunto, e com as mesmas conclusões. Recomendamos aos nossos leitores este blog, por conter muitos textos sobre historiografia, desmentindo falácias e falsificações pseudo-históricas propagadas por grupos reacionários.

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2 respostas a Calúnias contra Salvador Allende

  1. Adalberto Coutinho de Araújo Neto diz:

    Ótimo trabalho. Já tinha ouvido e lido algo assim sobre as posições de Allende quando ainda era um jovem médico. Muito bom saber que não passam de boatos e falácias.

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