Desculpas esfarrapadas

As desculpas usadas para tentar justificar o golpe de Estado de 1º de abril de 1964 são as mais esfarrapadas que se pode esperar. Existem, porém, duas versões, uma para lunáticos sem muita capacidade de raciocínio, outra um pouco mais sofisticada.

A primeira desculpa alega que o golpe foi na verdade um contra-golpe (que eles chamam de “revolução”), com o objetivo de impedir a tomada de poder por uma supostamente gigantesca, invisível, poderosa e improvável (nos dois sentidos da palavra) conspiração comunista mundial supostamente infiltrada no Brasil. Assim que tomassem o poder, esses conspiradores implantariam a “subversão dos valores cristãos ocidentais” e a “república sindicalista”, entre outras bobagens que os teóricos da conspiração inventavam. Após o golpe consumado, essa conspiração, sem conseguir tomar o poder, seria causa universal das greves, protestos, drogas ilícitas, banditismo, promiscuidade, ateísmo, arte erótica, homossexualidade, etc.

A segunda desculpa é um pouco mais sofisticada, mas não se enganem: é uma justificativa velada, e muito esfarrapada. Alega que João Goulart foi culpado do golpe de Estado, não por ser comunista, mas por ser supostamente populista, indeciso, fraco, incompetente e cercado de corruptos e “radicais”. Teria deixado a instabilidade tomar conta do país, ao prometer reformas de base e não reprimir o sindicalismo independente, Ligas Camponesas e nacionalistas de esquerda dentro das corporações militares. Resumindo: “teve o que mereceu”.

As desculpas esfarrapadas para o golpe de Estado se prolongam em desculpas esfarrapadas para o Terrorismo de Estado: na versão troglodita, o golpe preveniu a vitória da conspiração comunista, que continuou lutando contra o regime ditatorial instalado; na versão sofisticada, a ação de opositores radicais levou ao uso de medidas terroristas para vencer a luta armada.

A versão troglodita é fácil de responder, apesar de os seus proponentes nunca ouvirem os argumentos contrários às suas opiniões: nunca, em toda a história, um governo democrático foi deposto por uma rebelião comunista. Ao contrário, todos os governos depostos por movimentos liderados ou com participação de comunistas eram extremamente despóticos: governos coloniais, monarquias absolutas, ditaduras fascistas ou militares. E todos os governos democráticos depostos no século XX o foram por golpistas anticomunistas, que juravam estar defendendo a democracia ao suprimi-la.

A versão sofisticada não resiste a melhor exame: João Goulart ocupou a Presidência da República num momento de extrema delicadeza, sofreu uma intensa campanha de desestabilização patrocinada pelo governo dos Estados Unidos e grande parte do empresariado (incluindo a imprensa comercial), com participação de políticos de oposição, oficiais militares, clero católico e pequena-burguesia das grandes cidades. As quarteladas e insubordinações militares, a agressiva propaganda golpista, a associação criminosa entre empresários, militares, políticos e agentes estadunidenses, tudo isso já vinha anteriormente. Uma vez deposto o Presidente legítimo, substituído por uma Junta Militar Ditatorial chefiada por um General-Presidente, foi desencadeada uma onda de perseguições políticas por vários meios (cassação, demissão, exílio, prisão, tortura, assassinato, desaparecimento forçado), foi preciso ainda 4 anos e um estado de sítio total (AI-5) para que algumas centenas de ativistas optassem pela luta armada, combatida pelo governo com os mesmos métodos utilizados contra a militância não armada e minorias étnicas: sequestro, tortura, execução sumária, desaparecimento forçado, tribunais militares, censura prévia à mídia. Nem mesmo uma guerra civil de verdade justificaria o uso destes instrumentos criminosos, pois a guerra é regulada pela Convenção de Genebra.

Então quando forem agradecer aos militares fascistas (qualifico como fascistas, e não militares em geral, pois sei que mais de 7.500 militares sofreram exoneração, cassação, prisão, processos injustos e tribunais de exceção, tortura, assassinato e exílio por se oporem ao golpe), não se esqueçam de que, além da hiper-inflação, aumento da desigualdade e pobreza, arrocho salarial, endividamento externo, militarização da segurança pública, sucateamento da educação e saúde básicas, aumento da favelização, extermínio de povos indígenas, filhotes da ditadura na política e no empresariado, estes militares fascistas e seus aliados civis nos deixaram um amontoado de mentiras e desculpas esfarrapadas para os seus crimes contra a humanidade.

E como crimes contra a humanidade (imperdoáveis e imprescritíveis), só nos resta a investigação dos fatos e punição dos responsáveis. Doa a quem doer.

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Uma resposta a Desculpas esfarrapadas

  1. Marcus diz:

    “filhotes da ditadura na política” PMDB não curtiu isso.

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